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2017

Estendo-lhe o meu primeiro livro. É uma oferta e ele agradece. Estamos na área de restauração do shopping e já não nos encontrávamos há cerca de um ano.
R é um amigo de adolescência. Passámos muitas horas no seu sótão-quarto a fazer música, jogar computador e a conversar. Já passaram mais de vinte anos desde essa altura, mas, como acontece com algum tipo de amizades, não há qualquer estranheza entre nós enquanto falamos já sentados a uma mesa. Primeiro pergunta-me pela escrita. Tem curiosidade acerca da minha faceta de ficcionista e eu vou-lhe contando a minha experiência. A partir de certa altura passamos à música e aí sou eu a colocar-lhe uma série de dúvidas acerca de gravação e produção musical, áreas que ele domina. Gosto de rever o seu sentido de humor, que se mantém sempre à espreita e não perde uma oportunidade de intervir.
A razão do nosso encontro foi o ele ter-me dito por email que se ia reformar. Apesar de ser muito bem-sucedido, e ter ganho já bastante dinheiro na vida, como só há pouco dobrou os quarenta respondi-lhe a minha estranheza pela notícia. O desafio para este jantar aconteceu na sua resposta e, quando trago finalmente o assunto à conversa, diz-me, depois de uma primeira piada para despistar, que tem um cancro e que decidiu parar de trabalhar para poder estar com os filhos de sete e quatro anos. Deram-lhe pouco tempo, diz-me enquanto eu tento, e consigo, não chorar. Triste, triste, triste, mas orgulhoso da bravura e desassombro com que me dá os pormenores, pergunto-lhe a seguir por coisas que nunca lhe tinha perguntado acerca da sua infância e família, questões que eu sempre tive e nunca antes achara necessário colocar. As suas respostas vão muito além e ouço-o enquanto faz um balanço inesperado da sua vida, sempre analítico e lúcido, apesar do tanto pelo que teve de passar.
R é meu amigo, gosto dele. R é a pessoa com um QI mais alto que conheço. R dá-me um abraço enquanto nos despedimos a caminho do parque de estacionamento, talvez pela última vez. Eu sei-o, mas não consigo aceitar.

 

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publicado às 12:36

O gigante e o cogumelo

por FH, em 08.01.18

2015

Já não estava com R há algum tempo. O Parque da Pena está deliciosamente deserto nesta manhã de domingo. Paramos perto da estátua do Gigante e ele fala-me das suas experiências com cogumelos. Como sempre o conheci como um crítico da utilização de substâncias que alterem a consciência, estou admirado, até porque me mostra a sua própria cultura proibida na casa em que mora na Alemanha, para onde emigrou há dois anos. Além de nomes de compostos químicos, refere siglas atrás umas das outras, das quais só reconheço o DMT.

R está entusiasmado e mais fica quando descreve uma sua experiência com LSD. Entrou na casa-de-banho e tudo o que via estava representado por wireframe, isto é, havia as linhas a delimitar as formas das torneiras, do espelho e dos outros objetos. Era como estar dentro do Tron ou de uma imagem Cad, mas sem as cores, tenta explicar.

Artista, pintor, músico, mas ganhando a vida a limpar um pavilhão desportivo, praticante do poliamor e de ju jitsu, ao fim destes anos todos R continua a surpreender-me, agora com a sua exploração de estados alterados de consciência e profunda admiração por Terence McKenna e Timothy Leary.  

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publicado às 14:00


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