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Gente Séria, Hugo Mezena

por FH, em 19.04.18

Certa vez, numa livraria, ouvi um livreiro referir-se a uma mesa, onde pontuavam Nora Roberts, Danielle Steel e primas, como a mesa das gajas. Referia-se, penso eu, a um determinado tipo de ficção com as suas regras e temas específicos e que costuma ser adquirido por leitoras. Como acontece como qualquer género bem definido, é necessário que no enredo a personagem principal cumpra uma série de exercícios obrigatórios para que o livro chegue a essa mesa: um recomeço de vida, uma profissão de prestígio, a paixão por um homem que surge sem querer, um segredo do passado que volta para assombrar um futuro promissor com o tal homem e um momento decisivo em que uma atitude corajosa resolve o problema. Existem outros exercícios diversos, sempre obrigatórios, para Policiais, Thrillers, Ficções Urbanas e Fantástico, por exemplo.
“Gente Séria” inscreve-se numa categoria muito nacional, e sem nome institucional, a que eu chamaria “Prosa Afetada Prémio Leya”, cujas categorias obrigatórias são: Ruralidade (vida de aldeia com padres duvidosos, sachos na cabeça por causa de um curso de água, adultérios, pessoas enfermas que passam muito tempo em camas a definhar, fantasmas e apontamentos etnográficos pitorescos), Inventividade Formal, Homens sempre ou Fracos ou Despóticos, Violência e Passagem do Tempo.
Ou seja, Hugo Mezena decide cumprir os exercícios obrigatórios para escrever (mais) um livro igual a outros, com a agravante da forma que usa para o fazer. Os pequenos capítulos ocupam entre meia página e página e meia, na sua maioria, e são, na verdade, parágrafos preguiçosos de quem parece não ter tido paciência para escrever um texto corrido ou que quis muito deixar alguma marca de inovação (como artista), no que falhou terrivelmente. Esses pequenos capítulos são só pedaços espertalhões que emperram a leitura, que se repetem, que têm título desnecessários e que terminam quase sempre com uma frase lapidar para a qual, a partir de certo momento (da página 10, talvez) apetece responder que já não é preciso mais, obrigado.
A história é centralmente a de uma família e é contada por um rapaz, neto e filho. O seu pai e tio são fracos e o avô é forte e despótico (check). Há uma linha de comboio perto da aldeia onde duas pessoas morrem e uma fica aleijada para o resto da vida, um rapaz que leva com uma árvore em cima, um tratorista que é assassinado com um martelo, um suicida 605 forte e um avô demente e acamado (check). Há um padre que tem um caso com uma mulher e é apanhado, e um outro, um dos que morreu na passagem de nível, que se torna em fantasma (check). Existe uma viúva que tem um caso com um homem casado que lavra os campos (check). Existe um tolinho (check). Existe a festa mais importante da aldeia (check). Enfim, não há assim nada que seja interessante e que não se tenha lido em outros livros. 

Umas notas finais para a inverosimilhança da escrita de Mezena ao colocar pessoas a pensar e falar com palavras que nunca poderiam ser as suas (o Lobo Antunes lixou a cabeça destes jovens, caraças), para as ridículas derradeiras páginas em que o tio explica a razão por que simulou a sua morte e em que, na cena final, toda a aldeia lincha o tolinho, cada um à vez, o pobre amarrado a uma árvore e a receber pancadas com pés de cabra, murros e pauladas, num absurdo falhanço total, uma vez que a violência surge do nada, isto é, por parte de personagens que não têm densidade maior do que o talento do autor.

 

Adenda: dei uma volta pela internet à procura de outras reacções ao livro e estas são unânimes no louvor. Isto é, as pessoas e críticos parecem ter gostado. Por isso, aconselho a ler o observador sábado (Eduardo Pitta) Ronda da Noite e vários outros bloggers que gostaram do livro.  

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publicado às 09:23

O Nervo Ótico, Maria Gaínza

por FH, em 17.04.18

Livro elegante, solar e breve (165 páginas). Uma mulher ligada ao mundo da arte narra alguns episódios da sua vida, entrelaçando-os com  a descrição de encontros significativos com quadros expostos em museus. Não existe enredo e, que tivesse notado, só um personagem, a mãe da narradora, é comum a alguns dos capítulos. 

Com um humor apurado, a mulher ri-se, comedida, de si mesma enquanto criança, adolescente, jovem, grávida, mãe e ovelha-negra de uma família tradicional de Buenos Aires, em tempos muito abastada e agora decadente. E, enquanto o faz, fala-nos de pintores e arte resistindo, de um modo soberbo, vénia à escritora, a criar paralelos metafóricos entre a pintura de outros e as suas experiências. De facto, ela chega aos quadros, e os quadros chegam à sua vida, de um modo casual e a narrativa de ambos os momentos é singular, isto é, são histórias que valem por si, embora, e talvez esteja nesse aspeto o que mais me agradou no livro, sejamos levados a desconfiar de uma ligação secreta entre a arte explicada e a vida narrada, como se uma delas fosse desculpa para falar da outra, sem conseguirmos, no entanto, precisar exatamente porque o achamos, o que, em literatura, e no que diz respeito à apreciação do trabalho de escrita, se pode adjetivar de "triunfo".

Uma leitora deste livro deu-se ao trabalho de criar um vídeo dos capítulos com os artistas e quadros neles referidos. Como tanto numa obra tão breve? É fácil. Quer dizer, é difícil: escrever muito bem e ter um sentido de ritmo fabuloso.

 

 

 

    

    

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publicado às 14:08

Djaimilia Pereira de Almeida é filha de mãe de negra e pai branco. Nasceu em Angola e ainda muito nova veio para Portugal.
“Esse Cabelo” é um livro de reflexão e memórias pessoais escrito com muito cuidado, algo raro numa primeira obra e que poderá indicar que a autora escreveu outros livros antes.

O cabelo crespo da autora é o assunto transversal, a justificação certa para se falar de uma potencial dupla identidade que se verifica ser, afinal, só uma em que, por exemplo, coabita a herança de avós negros, que vivem numa casa de telhado de zinco perto da Amadora, e de avós brancos, residentes numa boa zona de Oeiras. 

Embora por vezes algumas das reflexões pareçam algo exageradas, num aparente esforço para além do sensato de exercício intelectual, este pequeno livro toca pela restante limpidez e perfeição da prosa. O pretexto do cabelo é só uma forma de falar dos seus, do pescador albino em Moçambique do início do século passado que nunca conheceu, até às deambulações da autora com os primos, cem anos depois, por uma Lisboa em modo estaleiro pré-Expo 98.
É um livro belo e arguto que, mesmo se um pouco desequilibrado, gostei muito de ler, até porque o cuidado óbvio colocado nas palavras, talvez por o tema ser a família, me fazer suspeitar de uma próxima obra já livre desse tipo de constrangimentos. E há na escrita de Djaimilia um talento impreciso, algo entre a frase rigorosa, a beleza das imagens e o domínio sem afetação da linguagem, que muito promete.

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publicado às 14:33

Dias sem Fim, Sebastian Barry

por FH, em 09.03.18

Há uns dias estava um casal homossexual na estação dos comboios. Um confortava o outro com gestos de ternura. Achei bonito. Sendo heterossexual, conheço aqueles gestos. Sei o que valem. Sei que são expressões básicas de afeto de quem ama.

 

A história de Dias sem fim passa-se nos Estados Unidos em meados do século XIX. Thomas, o narrador, parte da Irlanda depois de ficar sem família devido à fome e vagabundeia pelos Estados Unidos tentando sobreviver. Encontra John, um miúdo sem ninguém como ele, e decidem passar a viajar juntos. Uma decisão que será duradoura, uma vez que se tornarão companheiros e amantes para o resto das suas vidas, chegando mesmo a casar-se. Ainda pré-adolescentes, encontram trabalho num bar de uma cidade de mineiros. São contratados para se vestirem como raparigas e dançar com os homens. Quando o desenvolvimento dos seus corpos impede a continuação da atividade, tornam-se soldados e partem para o Oeste, onde lutam contra os índios. Instalados num forte, acabam por adotar uma rapariga sioux cuja tribo tinha sido dizimada e levam-na com eles quando os seus contratos terminam. Partem para St.Louis, onde se estabelecem como família. John é o pai e marido e Thomas usa vestidos dentro de casa. Encontram trabalho num teatro, apresentando um número em que Thomas faz de mulher, John de seu enamorado e tímido pretendente e Winona de criada. Com a chegada da Guerra Civil, os dois homens decidem alistar-se, deixam a rapariga aos cuidados de um amigo de confiança e partem para combater. Feitos prisioneiros, conseguem sobreviver graças a uma troca de prisioneiros entre os dois exércitos e voltam para St.Louis, onde reencontram aquela que consideram a sua filha. Com o fim da guerra, o teatro fecha e decidem partir para o Tenessee, para uma quinta de um antigo companheiro de armas que lhes pede ajuda. Aí, continuarão a ser felizes, como acontece sempre quando estão juntos, até um último percalço fazer pender sobre Thomas uma condenação à morte.

A beleza com que o amor dos dois homens é apresentado é de um equilíbrio extraordinário. E o mais importante é que isso é só uma parte deste grande livro. A forma como Thomas narra é comedida, não se deixando afetar pelo inevitável, procurando muitas vezes um certo humor, mas não deixando de se mostrar perplexo perante os massacres a que assiste e em que participa. Também não facilita na descrição da miséria e da forma como uma e outra  vez aquela aparece. Ao mesmo tempo, a capacidade de ser tocado pela beleza das paisagens e dos momentos é aguda, incisiva.

História de emigração, de guerra, de aventura e de amor, este livro breve (tem 230 páginas) é um triunfo absoluto de Sebastian Barry, não só pela naturalidade como o tema da homossexualidade é apresentado, o que faz com que o leitor se concentre na humanidade dos personagens, mas também pela escrita rica, colorida, cheia de figuras de estilo precisas e geniais, que não hesita em misturar discursos no presente e no passado, passagens mais ou menos coloquiais e reflexões sobre a condição humana com momentos de ação pura.

 

Um dos jovens dá um beijo na testa do outro, que chora. Faz-lhe festas na cara e sussurra palavras de carinho. O comboio aproxima-se e eu penso em como explicaria o que vejo às minhas filhas pequenas se elas ali estivessem. Fico agradecido por não estarem, mas sei que um dia o terei de fazer e que talvez seja um choque para elas quando lhes disser que é assim que algumas pessoas vivem os seus sentimentos, que têm o direito de o fazer e que não são nem piores nem melhores por serem como são. Dependendo da idade, talvez lhes dê a ler este livro nada panfletário em relação à homossexualidade  e um dos melhores que li sobre o antigo oeste americano.

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publicado às 23:25

A Tempestade, Marina Perezagua

por FH, em 23.02.18

Encolho os ombros perante mais um exemplo de literatura de academia em que a sordidez passa por exercício obrigatório. Entre algumas outras situações parecidas, colocar um bebé de colo a chuchar no pénis de um soldado poderia ser considerado mau gosto. Mas assim, sendo literatura, sendo, como os críticos têm falado deste volume, uma corajosa e extraordinária descida aos infernos da alma humana, ou uma merda assim, é só arte da boa. A desesperança na humanidade continua a render neste século e a autora explora-a de um modo competente nestes contos através dos desastres habituais que nos propõe: más relações familiares, vítimas de guerra e sexo problemático. Ou seja, um pouco daquela vidinha alheia com que intelectuais atingem orgasmos ideológicos e niilistas.
Felizmente, os textos têm um pouco mais do que esse frágil modo de criar. Esse mais não será ainda o facto de Perezagua usar a primeira pessoa na quase totalidade dos textos, como se sabe a mais fácil e, pois claro, psicanalítica das formas narrativas. Também não o será, de resto, a repetida fórmula, conto após conto, de começar numa conclusão escurecida a que depois se vai somando pormenores ao longo do texto até chegar à revelação final para que tudo seja clarificado, quando o é.
O mais forte é a imaginação e a qualidade da escrita, de facto extraordinária na escolha e na harmonia conseguida com as palavras. Do lado das situações propostas, a autora cria microcosmos geniais. Do lado da linguagem, a elegância, a terrível beleza que é usada para narrar, é espantosa, principalmente nos dois únicos contos em que é utilizada a terceira pessoa.
Depois de terminar o livro, fiquei a pensar em como seria a prosa da autora se os assuntos fossem outros que não os habituais das pessoas sérias da literatura. Esperando um dia vir a sabê-lo, sei que não o encontrarei no único romance da escritora que, segundo me parece, terá sido elaborado a partir de um dos contos existentes neste volume. Ficarei à espera e a fazer figas para que um dia seja publicado algo que denuncie uma saída  dessa adolescência criativa em que se encontrava quando escreveu este contos há dez anos.

 

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publicado às 15:12

Esta ficção com quase 1000 páginas tem como narrador um ex-soldado nazi que conseguiu escapar ao fim da II Guerra Mundial com uma nova identidade. É um livro de  memórias a dois tempos: o da vida interior, marcada por uma obsessão sexual incestuosa pela irmã, e o da exterior, em que relata a sua vivência como SS durante o conflito. 

Aue, assim se chama o protagonista, participa na ofensiva alemã na Russia, está envolvido diretamente na questão judaica e vive os bombardeamentos de Berlim. Entre descrições pormenorizadas de execuções em massa na Ucrânia e na Polónia, Aue aponta exaustivamente as relações de poder entre os alemães, numa infindável correnteza de siglas e títulos, departamentos e gestos burocráticos, desfilando por nós Eichmann, Speer, Himmler e até o próprio Adolf Hitler. Aue acaba por os conhecer a todos e partilhar connosco a que ponto tão extremo pode chegar a vida de uma nação quando se fundam os seus alicerces numa ideologia. Foi por isso que levei o livro até ao fim, para que não me venha a esquecer do que é possível acontecer. É, de resto, uma leitura muito dura e não creio que seja para todos.  

Apesar da sua obsessão pela irmã, ou aliás, devido à sua obsessão pela irmã que não poderá ser consumada, Aue escolhe os homens como parceiros sexuais e, nesse aspeto, as suas descrições são gráficas de um modo quase gratuito.

Tudo neste livro é como que demais e, às tantas, cansado por sentir tanta repulsa pelas longas páginas a relatar episódios burocráticos, evoluções metodológicas das carnificinas e pela quantidade de vezes que Aue é sodomizado, perguntava-me como é que alguém consegue escrever algo assim. Isto é, o que teria movido Littell a avançar e continuar durante anos com a escrita deste relato aparentemente insuportável.

O penúltimo capítulo acabou por me responder. Aue é ferido e vai de licença para a casa de campo da irmã. Ela não está lá e ele passa algum tempo sozinho, deixando-se enredar numa teia de loucura cujo ponto mais radical, digamos assim, é quando se faz penetrar por um ramo de uma árvore. São páginas e páginas dos mais abjetos sonhos, atos e reflexões e, enquanto os evitava, virando as páginas, creio ter percebido, por fim, a tese e o propósito de Littell e, assim, o próprio Aue, que graças à sua diligência como soldado acaba por ser condecorado já no bunker de Hitler uns dias antes de este se suicidar. 

A guerra permitia a Aue não pensar nas suas questões. Enquanto está ao serviço de Himmler, basta-lhe cumprir ordens e atuar dentro das regras que lhe são dadas. A gratificação, o sentido da sua existência, vem dos seus relatórios, de existir algo sempre para fazer, seja regatear trabalho escravo judeu na Hungria para as fábricas de Speer, seja andar entre departamentos como moço de recados. Quando se encontra sozinho e de licença, Aue mata a mãe e o padrasto e tem ataques psicóticos que o fazem deambular nu pelos bosques depois de queimar de propósito os seus genitais com cera a ferver. Ao ser mais fácil ler sobre o extermínio de mulheres e crianças do que sobre o que faz Aue quando está entregue a si próprio, percebemos que é no íntimo pessoal que o horror para ele vive e que as tarefas que lhe dão, por obedecerem a um regulamento e a regras bem definidas, são mais fáceis de enfrentar.

Talvez Littell esteja a querer dizer-nos isso, a chamar a atenção para os motivos que fazem com que as ideologias triunfem: há muitas pessoas mal resolvidas para quem os movimentos gregários e o papel dentro deles pode surgir como uma salvação.

Em termos narrativos, Littell é bastante competente quando está em modo ação, interessante na descrição dos ambientes nos eventos que envolvem o Partido, incompetente nas divagações metafisicas de Aue e um estafermo à condição na forma como faz a história avançar. As últimas dez páginas são absurdas, mas talvez o possam ser, porque a condição referida é a própria memória de Aue, acerca da qual nos são dados alertas para que dela desconfiemos. E se for tudo mentira? E se o narrador não tiver sido mesmo um ex-SS e não passar de um farsante? Ou se Aue tiver sido mesmo SS, mas não tiver vivido nada do que relata? Assim se compreenderia essas últimas páginas em que, já com tanques soviéticos a percorrer as ruas, há como que uma diarreia de ação quase delirante em que tudo se mistura e em que as coisas acontecem de um modo comprimido, em que personagens aparecem vindas do nada, inacreditáveis, e em que Aue corre de um lado para o outro por uma Berlim destruída e termina no jardim zoológico com zebras e hipopótamos a passarem por ele enquanto mata o seu melhor amigo para lhe roubar a identidade. 

Como nota pessoal, não posso deixar de me auto-elogiar por não ter falado nesta opinião de Anna Harendt ou do "problema do mal".

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publicado às 09:34

Rio Homem, André Gago

por FH, em 23.01.18

Apanhado pelas forças inimigas franquistas, Rogelio foge para Portugal, onde é acolhido na aldeia de Vilarinho das Furnas. Apaixona-se por uma mulher casada que está de passagem e com ela vive uma intensa e breve relação. Quando ela volta para o Porto, preferindo ficar com o marido e repudiando Rogelio, este fica triste. Essa tristeza será maior quando sabe que os pais morreram através de um companheiro galego de contrabando, atividade a que entretanto se dedica, e menor quando chega um antropólogo que não só o contrata como ajudante como também lhe arranja uma identificação portuguesa falsa. Um amigo do antropólogo, um escritor de Coimbra, torna-se também amigo de Rogelio, que lhe serve de guia em passeios pelas montanhas. Durante uma visita dos dois a uma mina de Volfrâmio, Rogelio decide lá ficar a trabalhar. Resolve depois comprovar a veracidade da notícia da morte dos pais, apesar de saber que se os franquistas o apanharem poderá ser executado, tanta entrar em Espanha, é apanhado e preso. Acabará por voltar a Vilarinho das Furnas após cumprir a sua pena de muitos anos. Passa então a viver solitária e silenciosamente.

A história é esta e poderia ser contada em 80 páginas. Em termos de ação, quando ela existe, a narrativa é fluída no assunto e no modo como é apresentada. Os diálogos são muito bem escritos.

Infelizmente, tudo o resto no livro é um pastel e desde cedo percebemos que o enredo é uma desculpa para falar de outros assuntos. E isto é de tal forma gritante, que no fim o nosso protagonista parece ser feito de cartão, o que faz sentido, porque demasiado tarde percebemos que a personagem principal, afinal, era outra.

O autor alonga-se de um modo inacreditável em profundidades filosóficas e psicológicas não só de Rogelio, mas também, enfim, da Humanidade em geral, que não há submarino de grande profundidade capaz de aguentar. A adversativa com os seus “mas”, “por outro lado” e todos os produtos similares, adquirem proporções raramente vistas, e ainda bem, em livros que supostamente tem um editor para ajudar o escritor a detetar o ridículo. Uma boa frase conseguiria condensar as quatro ou cinco páginas seguidas de reflexão e evitaria que o virar de página tivesse sido tantas vezes praticado pelas piores razões como aconteceu comigo.

Existem ainda as longas lições de História da II Guerra Mundial, muitas vezes escritas como que para pessoal em primeira visita ao nosso planeta.

E no fim percebe-se que o objetivo é falar de Vilarinho das Furnas, a aldeia comunal que foi submersa por uma das barragens construídas pelo Estado Novo e que era, na verdade, a personagem principal

Senti este livro como uma tragédia. Aqui está um bom escritor, alguém que sabe narrar, que domina a língua portuguesa e que tem uma imaginação competente, a estragar uma boa história com a ideia estapafúrdia de que enxurradas após enxurradas de complexidades psicológicas e lições de História universal para marcianos são coisas valorizáveis. Ideia, aliás, justificada por este livro ter sido finalista do Prémio Leya de 2010 e ter ganho o Prémio PEN Clube Portugal para Primeiro Romance, o que atesta bem do que é louvável para a nossa comunidade de júris literários: livros falhados desde que poéticos ou etnográficos (vide Nuno Camarneiro).

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publicado às 14:44

Passar como adulto por um romance em que não se encontra qualquer mácula ou sinal de preguiça também me aconteceu com A Conspiração Contra a América, de Philip Roth. Até hoje só se tinha verificado com Herzog, de Saul Bellow, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Austerlitz, de Sebald..

Num exercício de adiamento de recompensa, ou talvez administrando doses garantidas de espanto que me façam querer continuar a escrever ficção, existem autores que vou deixando para mais tarde. Dos portugueses, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Assis Pacheco, Mário de Carvalho e, principalmente, Agustina Bessa Luis são alguns exemplos. Entre os estrangeiros, e entre outros, Vargas Llosa, Bernhard, Proust, Thomas Mann, Updike e Houellebecq.

Dentro deste último tipo, adiei também a leitura de Roth. Até agora.

A história contada passa-se nos Estados Unidos durante o início dos anos quarenta do século passado. O narrador, Philip, recorda esse período da sua vida em Newark quando tinha sete anos, relatando os acontecimentos no país e como a sua família os viveu.

Partindo da premissa de uma realidade alternativa, em que Charles Lindbergh, não só o herói americano da primeira travessia aérea a solo do Atlântico, mas também aberto anti-semita, supremacista branco e simpatizante nazi, foi eleito presidente do país em 1940, o autor desenvolve uma crescente perseguição aos judeus norte-americanos que afeta diretamente a família judia Roth, desde a primeira perceção, durante a uma viagem a Washington em que os seus quartos de hotel são atribuídos a outras pessoas sem nenhum tipo de justificação, até ao clímax da violência, em que judeus são assassinados nas ruas por milícias. Ao mesmo tempo, intercalando assuntos, os factos alternativos da história americana, como a sua neutralidade durante a II Guerra Mundial e os pactos com Hitler, vão sendo desenrolados, pondo a nu, lentamente, um plano, não só para enfraquecer as comunidades judaicas como para importar o fascismo para os Estados Unidos.

Não tendo lido qualquer outro livro do autor, não o posso colocar sob perspetiva no conjunto da sua obra. Este seu vigésimo romance foi publicado em 2004 e para trás, numa carreira que começou em 1959, existem outros títulos que sei bem diversos.

A escrita de Roth é magnífica e sem mácula. Existem frases longuíssimas tão bem urdidas que parecem frases curtas. Há descrições de tal modo competentes sobre a Newark de 1940 que quase parecem inacreditáveis. Há listas de bíblicas proporções de nomes de personalidades que atendem a festas, presentes em cerimónias públicas ou registadas como simpatizantes políticos que deslizam sem custo pela leitura. Os diálogos são magistrais, certos e ponderados. A ação avança sem dificuldade, numa mecânica de relógio suíço e às tantas, estando tudo tão bem feito, tão bem pensado e escrito, estamos a considerar que tudo aquilo é História.

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publicado às 14:56


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