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Submissão, Michel Houllebecq

por FH, em 03.05.18

Chego, enfim, a Houllebecq, mais uma das minhas inúmeras leituras tardias.
Em 2022 um partido muçulmano, coligado com esquerda, chega ao poder em França para evitar que a Frente Nacional forme Governo. O protagonista e narrador é um professor universitário no início dos quarentas que se vê afetado pela prioridade do novo Executivo: a Educação. As escolas e universidades passam a estar submetidas aos costumes islâmicos e François, não sendo muçulmano, é convidado pela Sorbonne a rescindir contrato.
A sua vida sentimental, que ao longo dos anos foi alimentada por ligações breves com alunas, após a sua última namorada de 22 anos e ascendência judia ter partido com os pais para Israel, com receio de uma eventual vaga de anti-semitismo em França, caiu numa secura que ele tenta contrabalançar recorrendo a serviços de prostitutas.
O retrato de François traçado por Houllebecq é o de algumas pessoas que conheço, o que me admirou: o cinismo emocional, a incapacidade familiar, o medo da dor e da doença, a obsessão pela gastronomia e pelo luxo, o egoísmo assumido e o oportunismo cobarde que só se consegue encontrar em pessoas de classe média-alta.

Especialista na obra do escritor Huysmans, o narrador vai estabelecendo ligações entre este e as suas próprias lutas interiores. Em crise, recolhe-se mesmo num mosteiro, onde o seu objeto de estudo se refugiara no século XIX para uma vida de ascetismo. François, todavia, tem uma experiência que dura somente um par de dias devido à sua incapacidade de lidar com o desconforto e com a impossibilidade de fumar.

François acaba, por fim, por perceber as vantagens de se tornar muçulmano: voltar a ter o seu lugar de professor e aceder à poligamia. Converte-se por interesse e comodidade, como todos à sua volta. 
Mais do que uma especulação política, Submissão trata do oportunismo de que o ser-humano é capaz em beneficio do seu conforto individual. Indica-nos ainda como qualquer ideologia, neste caso o islamismo, não passa de uma forma de, sob a máscara de ideais superiores e pretensamente louváveis, muitos darem largas às suas ambições egoístas.

Houllebecq inverte neste livro escrito de um modo impecável a ideia tradicional de distopia. O foco não está na mudança social mas no modo como o egoísmo do protagonista se adapta a ele. Existem, de resto, muitas referências à sociedade francesa que, naturalmente, me escaparam.

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publicado às 10:49



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