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Dias sem Fim, Sebastian Barry

por FH, em 09.03.18

Há uns dias estava um casal homossexual na estação dos comboios. Um confortava o outro com gestos de ternura. Achei bonito. Sendo heterossexual, conheço aqueles gestos. Sei o que valem. Sei que são expressões básicas de afeto de quem ama.

 

A história de Dias sem fim passa-se nos Estados Unidos em meados do século XIX. Thomas, o narrador, parte da Irlanda depois de ficar sem família devido à fome e vagabundeia pelos Estados Unidos tentando sobreviver. Encontra John, um miúdo sem ninguém como ele, e decidem passar a viajar juntos. Uma decisão que será duradoura, uma vez que se tornarão companheiros e amantes para o resto das suas vidas, chegando mesmo a casar-se. Ainda pré-adolescentes, encontram trabalho num bar de uma cidade de mineiros. São contratados para se vestirem como raparigas e dançar com os homens. Quando o desenvolvimento dos seus corpos impede a continuação da atividade, tornam-se soldados e partem para o Oeste, onde lutam contra os índios. Instalados num forte, acabam por adotar uma rapariga sioux cuja tribo tinha sido dizimada e levam-na com eles quando os seus contratos terminam. Partem para St.Louis, onde se estabelecem como família. John é o pai e marido e Thomas usa vestidos dentro de casa. Encontram trabalho num teatro, apresentando um número em que Thomas faz de mulher, John de seu enamorado e tímido pretendente e Winona de criada. Com a chegada da Guerra Civil, os dois homens decidem alistar-se, deixam a rapariga aos cuidados de um amigo de confiança e partem para combater. Feitos prisioneiros, conseguem sobreviver graças a uma troca de prisioneiros entre os dois exércitos e voltam para St.Louis, onde reencontram aquela que consideram a sua filha. Com o fim da guerra, o teatro fecha e decidem partir para o Tenessee, para uma quinta de um antigo companheiro de armas que lhes pede ajuda. Aí, continuarão a ser felizes, como acontece sempre quando estão juntos, até um último percalço fazer pender sobre Thomas uma condenação à morte.

A beleza com que o amor dos dois homens é apresentado é de um equilíbrio extraordinário. E o mais importante é que isso é só uma parte deste grande livro. A forma como Thomas narra é comedida, não se deixando afetar pelo inevitável, procurando muitas vezes um certo humor, mas não deixando de se mostrar perplexo perante os massacres a que assiste e em que participa. Também não facilita na descrição da miséria e da forma como uma e outra  vez aquela aparece. Ao mesmo tempo, a capacidade de ser tocado pela beleza das paisagens e dos momentos é aguda, incisiva.

História de emigração, de guerra, de aventura e de amor, este livro breve (tem 230 páginas) é um triunfo absoluto de Sebastian Barry, não só pela naturalidade como o tema da homossexualidade é apresentado, o que faz com que o leitor se concentre na humanidade dos personagens, mas também pela escrita rica, colorida, cheia de figuras de estilo precisas e geniais, que não hesita em misturar discursos no presente e no passado, passagens mais ou menos coloquiais e reflexões sobre a condição humana com momentos de ação pura.

 

Um dos jovens dá um beijo na testa do outro, que chora. Faz-lhe festas na cara e sussurra palavras de carinho. O comboio aproxima-se e eu penso em como explicaria o que vejo às minhas filhas pequenas se elas ali estivessem. Fico agradecido por não estarem, mas sei que um dia o terei de fazer e que talvez seja um choque para elas quando lhes disser que é assim que algumas pessoas vivem os seus sentimentos, que têm o direito de o fazer e que não são nem piores nem melhores por serem como são. Dependendo da idade, talvez lhes dê a ler este livro nada panfletário em relação à homossexualidade  e um dos melhores que li sobre o antigo oeste americano.

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publicado às 23:25


1 comentário

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De P. P. a 10.03.2018 às 21:44

Uau!

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