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Descida Controlada - Parte 2

por FH, em 17.05.18

 

Dia 4

Sete e meia da manhã. Vou ao pão. Dou com um raio de luz à Mallick quando passo no jardim municipal. O brilho oscila entre a ramagem de uma árvore e penso que não pode ser, que não quero cair nessas referências contemplativas de personagem que, achando ter pouco tempo de vida, começa a querer mostrar aos outros que está mergulhado na beleza do mundo. Acharia esse raio de luz interessante fosse como fosse, numa porcaria de dia ou em pleno êxtase existencial. Falaria dele a J, como fazemos com nuvens, céus poentes, pássaros ou portões. A minha vida não está em risco, pelo menos que eu saiba, e este tique para o dramático incomoda-me. Usar coisas destas para tornar bonito o relato, para impressionar o leitor, não me agrada, nem aqui, nem na ficção que escrevo. Por isso, o raio de luz não importa, como também não importa aquele homem de capachinho óbvio. Tem uns sessenta anos e usa um fato antigo. Cospe para o chão sem pejo e é um momento feio. Também não quero vender a ninguém o degradado com o suposto valor intelectual do inefável a vida como ela é.

O comprimido que comecei a tomar está a fazer o seu efeito. O estômago está melhor.

Vou almoçar com a família e, perante a minha fraca figura, sou convencido a ir às urgências do Hospital Amadora-Sintra.

A médica sul ou centro americana que me vê é antipática e não fala bem português. A sua figura - o cabelo comprido preto, o metro e cinquenta, as unhas, a pintura exagerada - faz-me lembrar a de uma acompanhante de Joaquim de Almeida quando este faz de canastrão latino-americano de Hollywood. Mas a sua antipatia - tem uma expressão tão fechada e fala tão baixo que quase me faz rir - agrada-me e é eficiente. Todavia, há algo de irregular nesta situação. Olha para mim com receio. Quando volto para a sala de espera, já depois de me tirarem sangue, penso se a sua reserva não se deverá a eu parecer-lhe alguém do submundo do crime que vem vingar o Joaquim de Almeida por ela o ter traído num negócio em Miami.

Perto das oito das noite, agora que já passaram cinco horas desde que cheguei, a mulher chama-me e informa-me, sorrindo, que vou ter que ficar aqui até amanhã para ser visto pela «gastro». Uma auxiliar diz-me que me vai dar uma maca para passar a noite. Aceito com curiosidade a oferta, porque significa que me vou estrear como internado hospitalar, uma velha e incompreensível ambição pessoal de menino.

Antes da maca, porém, conheço o médico que se segue no turno à madrinha de casamento da sobrinha do Pablo Escobar. Trata-se de um homem de meia-idade, sem dúvida o resultado do cruzamento do ADN de Oliveira da Figueira com um dos meus vizinhos anónimos de fim-de-semana. Esforça-se para que eu não fique internado e medica-me como se não houvesse amanhã, o que eu não acredito nem por um minuto. Um deste, dois daquele, mais três minutos de conversa, mais um ainda deste também. Quando por fim me deito na maca, estou um pouco mole e a minha cabeça começa a latejar com uma valente dor de cabeça, indesejada habitual de demasiados dias da minha vida.

A sala quadrangular tem umas dez pessoas. As macas estão dispostas de um modo que me faz lembrar um cinema drive in muito peculiar em que espetadores aflitos, alguns idosos meio dementes, desligaram há muito o interruptor do bom senso e cortaram os fios elétricos que os ligavam à realidade. Um deles morde uma enfermeira. Uma outra murmura uma misteriosa ladainha sioux. Um outro, de boca e olhos abertos que não se mexem, dir-se-ia que faleceu não  fossem os gemidos guturais que de vez em quando solta para animar a minha esperança de estar numa fita de George Romero. A rapariga de uns trinta anos, que está na maca ao meu lado com os braços amarrados, vai chorando não sei se a tentativa frustrada de suicídio com comprimidos, se um arrependimento por algo mais profundo. É, no entanto, Mimo, que está à minha frente, cujo episódio desta mini-série me comove mais.

O Mimo está há meia-hora a dizer que se quer ir embora. Tem uns oitenta anos e uma valente infeção urinária. Insiste com a filha para que ela o leve para o elevador, embora não haja nenhum. Quando está nas mãos das enfermeiras grita que não quer ser medicado e que o querem matar. Dá para ver que a filha já chorou bastante e volta às lágrimas quando ele lhe começa a chamar burra. Soluçando, dá lugar a uma outra mulher cinquentenária que se aguenta muito melhor e que o consegue manter sem ser ordinário com uma atitude mais assertiva e um discurso articulado com que lhe explica que não deixam que ele saia dali naquele estado. Substitui-a, passados uns minutos, a esposa do Mimo. É ela que o chama assim. Tem uma voz terna que o acalma. É uma mulher com o cabelo todo branco, alta, que lhe faz festas na cara e lhe dá beijos e diz «Mimo, tu não és assim. Tu não gritas. Tu és um homem doce, Mimo. Não dizes palavrões.» É bonito. Na verdade, é comovente como tudo. Ele corresponde como pode, baixando a voz, tentando compreender o que não consegue, esforçando-se a sério, dá para ver por causa da sua confusão, por causa do choro envergonhado que de vez em quando o acomete, porque é ela, a companheira de uma vida que lhe garante que há algo de errado e que, como aconteceu tantas vezes nos últimos sessenta anos, é ele que não está  a ver bem as coisas. Sabe que tem de acreditar nela, embora desta vez, por alguma razão que lhe escapa, não seja tão fácil.

Adormeço já depois de o Mimo ser levado e, enquanto me vou, penso que o amor que une duas pessoas é uma forma poderosa de fé e que tenho muita sorte em o saber por experiência. Sinto falta de J, que teve de ir para casa para tomar conta das miúdas.

 

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