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Descida Controlada - Parte 1

por FH, em 11.05.18

Dia 1 

Investigo. Os sintomas podem significar umas quatro condições, da hemorragia ao cancro. Caraças. Cancro? Consulto vários sites. Sim, é isso. Bolas, não estava nada à espera. Não dá jeito. Penso nas minhas duas filhas. Se eu me for rápido, é provável que a mais pequena nem se lembre de mim quando crescer. O que devo fazer? Esperar dois dias. Se os sintomas se mantiverem, ir ao médico.

Faz sentido. Ontem estava em forma. Subi as escadas do prédio, orgulhoso desta minha nova capacidade pulmonar de quasi-ex-fumador. Hoje fiquei cansado e tive de encostar-me à parede quando cheguei. Depois, sentei-me no sofá e, puf, apaguei, exausto de causa desconhecida. 

 

Dia 2

Cansado. Muito cansado. Estupidamente cansado para o meu orgulho masculino de pai, marido e irmão de três homens que fazem a meia-maratona. Não pode ser. Mas é. Como os sintomas que se mantém. Caraças, é mesmo.

Final do dia. Tenho de parar a meio a subida das escadas. Ofego. Tonto pela falta de oxigénio, nem me consigo chamar maricas por me dar ao desplante dondoca de não disfarçar quando entro em casa.

Começo a ligar as coisas. Esta dor no estômago a que já me habituei ao longo dos últimos meses deve ter alguma coisa a ver com os sintomas e com o cansaço. Esta, que me faz levantar à meia-noite e meia e que, depois de um cigarro, acalma quando me deito no sofá. Adormeço com telenovelas na cabeça acerca do que a minha morte poderá significar para as quatro pessoas para quem sou mesmo importante. Acordo perto da uma, satisfeito por a dor ter acalmado. Volto para a cama e adormeço a pensar no romance que enviei para aquele concurso da Leya. Tenho de me aguentar até Outubro, pelo menos. Não acho que vá ganhar, mas o mundo interior de cada um está cheio dessas impossibilidades. Afinal, pode passar-lhe alguma coisa pela vista, ao júri, e premiar o livro. 100 mil biscas. 75 depois de impostos, acho. Este ano recebi uns quarenta euros de direitos dos dois romances publicados. Dava jeito. Se fosse maricas, maricas a sério, passava este texto a colocar aqueles refrões à Lobo Antunes. De vez em quando colocava "Caraças" e outras "Cancro?" (assim mesmo, com a interrogação) e as pessoas, derretidas a lerem isto, embaladas pelo truque, a acharem o meu relato "muito bem escrito" e emocionadas e a deixarem comentários. Se os deixarem por causa da escrita são palermas.

Acordo. A mais velha grita por mim. São quatro da manhã. Pesadelo. "Anda. Levo-te para a nossa cama. Dormes com a mamã." Volto ao sofá. O seguro de vida paga a casa. A J não tem de se preocupar mais com isso. E o prémio. Faço as contas. Dava para uns dez anos, bem trabalhado. Pelo menos até as miúdas serem crescidas. 

"Pelo menos até as miúdas serem crescidas", digo a Deus enquanto oro. Faço-o todos os dias e nem sequer vou à igreja. Sou um ser religioso que acha que Deus não o tem como um dos Seus preferidos, mas que está agradecido por receber todo o amor, por mais pequeno que seja, e orientação que Ele me queira dispensar. Mas sei que as coisas não funcionam assim. Pelo menos comigo, Ele não costuma dar nenhuma prenda que eu peça. Tudo o que de bom me calhou, e é tanto, apareceu-me sem que eu pedisse. De qualquer modo, é curioso como vou buscar o pior cenário possível. Que Drama Queen tu me saíste, pá!  Por isso, digo-Lhe "Ajuda-me a estar à altura e a ser um instrumento da tua Vontade." Digo-o com o coração. Nunca precisei de mais e sei que é tudo o que é necessário. Adormeço.

 

Dia 3

A dor e o cansaço parecem ter instalado o seu centro operacional de um modo definitivo e, ao chegar ao emprego de manhã, estes dois novos companheiro estão em plena atividade. Quando os sintomas se repetem, abalo para o Centro de Saúde. 

Subo as escadas até ao quinto piso. Porque é que a mente resiste em alinhar com a realidade desta forma? Sento-me na sala de espera. Nuca encostada à parede. Olhos fechados. Ligeiras tonturas. Vou ouvindo os números das senhas e digo mentalmente o meu. Os pensamentos são muito pouco elaborados. Estou só contente por poder descansar.

Consigo consulta rapidamente depois de revelar os dados que tenho à minha disposição. A médica é açoriana e tem uma outra, talvez estagiária, com ela. Chego ao fim com análises para fazer, preferencialmente ainda hoje, uma receita de medicamento e uma credencial para uma endoscopia. Como se ela se lembrasse à última, como se achasse que embora não vá ser preciso, talvez não se perca nada em levar uma credencial para uma biópsia. A forma como o fez foi quase perfeita, mas ela não sabe que o meu hobby é escrever histórias e que sei que o que ela fez não passa de uma solução clássica de enredo. 

À tarde, quando vejo a minha filha do pesadelo, pergunto-lhe por este. Era um coelho que duplicava pessoas. Quando ele se aproximava dela, ela respondia, enxotando-o com pontapés. 

J está a trabalhar e acabei de deitar as miúdas. A barriga dói-me. Agora é diferente porque imagino o sangue a sair das paredes. Revejo os resultados das análises que recebi por email. É uma hemorragia no estômago. Agora não há dúvidas. Anemia por falta de sangue. A médica disse-me para ir ao hospital se a minha situação piorasse, que poderia ser perigoso perder sangue a mais. 

A mais pequena dorme no sofá ao meu lado. Uma boneca de pano e uma vaca fazem-lhe companhia. Sabe que estou doente e quis ficar a tomar conta de mim. Ressona. Tem 4 anos e sim, está a tomar conta de mim, embora não o saiba.

Estou contente por a minha escrita ser anónima. Já não escrevia sobre o dia-a-dia  há muito anos. 

 

 

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publicado às 21:27


1 comentário

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De Anónimo a 17.05.2018 às 17:56

Força, pessoa de palavras fortes. Força.

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