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A Tempestade, Marina Perezagua

por FH, em 23.02.18

Encolho os ombros perante mais um exemplo de literatura de academia em que a sordidez passa por exercício obrigatório. Entre algumas outras situações parecidas, colocar um bebé de colo a chuchar no pénis de um soldado poderia ser considerado mau gosto. Mas assim, sendo literatura, sendo, como os críticos têm falado deste volume, uma corajosa e extraordinária descida aos infernos da alma humana, ou uma merda assim, é só arte da boa. A desesperança na humanidade continua a render neste século e a autora explora-a de um modo competente nestes contos através dos desastres habituais que nos propõe: más relações familiares, vítimas de guerra e sexo problemático. Ou seja, um pouco daquela vidinha alheia com que intelectuais atingem orgasmos ideológicos e niilistas.
Felizmente, os textos têm um pouco mais do que esse frágil modo de criar. Esse mais não será ainda o facto de Perezagua usar a primeira pessoa na quase totalidade dos textos, como se sabe a mais fácil e, pois claro, psicanalítica das formas narrativas. Também não o será, de resto, a repetida fórmula, conto após conto, de começar numa conclusão escurecida a que depois se vai somando pormenores ao longo do texto até chegar à revelação final para que tudo seja clarificado, quando o é.
O mais forte é a imaginação e a qualidade da escrita, de facto extraordinária na escolha e na harmonia conseguida com as palavras. Do lado das situações propostas, a autora cria microcosmos geniais. Do lado da linguagem, a elegância, a terrível beleza que é usada para narrar, é espantosa, principalmente nos dois únicos contos em que é utilizada a terceira pessoa.
Depois de terminar o livro, fiquei a pensar em como seria a prosa da autora se os assuntos fossem outros que não os habituais das pessoas sérias da literatura. Esperando um dia vir a sabê-lo, sei que não o encontrarei no único romance da escritora que, segundo me parece, terá sido elaborado a partir de um dos contos existentes neste volume. Ficarei à espera e a fazer figas para que um dia seja publicado algo que denuncie uma saída  dessa adolescência criativa em que se encontrava quando escreveu este contos há dez anos.

 

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publicado às 15:12


3 comentários

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De Anónimo a 26.02.2018 às 07:54

Há dez anos basta (atrás é redundância)
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De FH a 26.02.2018 às 09:21

Sem dúvida. Corrigido. Obrigado!
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De Anónimo a 27.02.2018 às 19:35

Espero que não me tenha levado a mal, mas gosto muito de o ler, que me deu comichão aquilo :)

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