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Uma Questão Pessoal, Lee Child

por FH, em 30.05.18

Segundo a contracapa, a cada quatro segundos vende-se um livro de Lee Child. Tentei fazer as contas ao dinheiro que o homem ganhará e, não só por pudor, mas também por vergonha pelas vendas dos meus livros, desisti quando os zeros que se iam acumulando à direita se tornaram absurdos.

O herói - sim, trata-se mesmo de um herói - dos livros de Child chama-se Jack Reacher. Ex-militar, tem a particularidade de não ter casa nem pertences, a não ser, segundo julgo ter percebido, uma escova dos dentes e a roupa em segunda mão com que anda vestido. Violento com os maus, compassivo com os mais fracos e justo com todos, Jack está em permanente movimento, deambulando pelo seu país, os Estados Unidos da América, a pé ou como passageiro de autocarros, comboios e, embora não o possa jurar, creio que à boleia.

Há cerca de duas décadas que Reacher anda por aí, quer dizer, por lá, e este livro é um dos mais recentes (2014). Assim, o personagem está escrito de um modo bastante sólido e Child pode referir-se a algumas situações passadas, imagino que de outros livros, com calma e propriedade, como acontece com alguns apontamentos da história familiar do protagonista e com o pormenor de a sua companheira de aventura em Uma Questão Pessoal  lhe lembrar uma outra da mesma idade por cuja morte ele se sente responsável.

O enredo está focado no recrutamento de Jack por parte de um general que lidera uma task force que tenta apanhar um atirador especial que se crê ser uma ameaça a uma reunião do G8 em Londres que está para breve. A justificação para aceitar a missão é dada por uma dívida antiga pessoal para com um dos braços-direitos do general e por um dos três suspeitos ser um ex-soldado que cumpriu uma pena de prisão de quinze anos devido a Jack e que tudo indica se querer vingar dele.

Nunca tinha lido nada deste "mestre do thriller", cargo que, a crer pelas capas que se vêm nas livrarias, deve partilhar com uns quinze mil ou dezasseis mil e quinhentos outros autores e que no próximo ano se aproximará certamente dos dezanove mil. 

A história é linear e grande parte passa-se em Paris e Londres. É contada por Reacher na primeira pessoa e segue as regras basilares deste tipo de livros, com os seu grandes diálogos, esmeradas descrições dos espaços físicos, a ação deixada em suspenso no final de cada capítulo , como em "e quando saí da farmácia, ela não estava lá. Nem o Skoda." e as sub máquinas narrativas a funcionar de modo a que no final tudo bata certo e aquilo que se julgava serem só palpites, ou até descuidos, se revelem, afinal, parte do plano de Jack. As cenas de pancadaria - em que os cotovelos do protagonista têm uma constante e surpreendente preponderância - são, talvez, a particularidade da escrita de Lee Child que me irá fazer guardar este livro como text book. Ao saber que há livros desta série escritos na terceira pessoa, fiquei curioso por dar uma espreitadela e ver se Child se safa tão bem.

Em resumo, o livro é bom (competente) e um dos melhores do género que já li. Se o que se procura é entretenimento puro, ou um tipo de série, isto é, um ambiente reconhecível  a cada novo livro, então Jack Reacher, como Gabriel Allon e Robert Langdon, é um garante de satisfação. 

  

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publicado às 09:17

Legislar as emoções

por FH, em 28.05.18

Concordo com a penalização da eutanásia. Todavia, sei que nesta, ou na próxima legislatura, a eutanásia passará a ser possível.

Observo nessa nova regressão civilizacional a concretização de uma das mais antigas ambições totalitárias: legislar no campo dos sentimentos e emoções. A medida da Dignidade, quer se queira, quer não, será fixada e crescerá normalmente em complexidade e amplitude, como aconteceu já, e com uma rapidez exemplar, na Holanda e na Bélgica, que com o Luxemburgo são únicos países que praticam a eutanásia. Julgo que aqui em Portugal, daqui a cinco ou dez anos, a cultura da morte doce, ou da morte digna, também chegará às depressões e aos cuidados geriátricos como acontece hoje nos países do Benelux onde médicos já podem decidir pelo doente o nível de sofrimento que acham admissível. Esperar que a legislação criada acautele qualquer possibilidade de abuso é, no mínimo, ingénuo. A situação daqui a duas décadas é inimaginável, porque a tendência do termo dignidade ser usado para tudo o que implique algum nível de sofrimento terá um aumento exponencial. Até porque estou convencido que a eutanásia serve mais para apaziguar os que ficam, e assistem à morte de queridos, do para os que morrem, a quem nunca se ouvirá uma opinião ou avaliação acerca da experiência.

A liberdade individual quanto à morte está naturalmente consagrada pelo suicídio. Querer passar o ónus da responsabilidade do gesto para terceiros é cobardia e um ataque a essa mesma liberdade.

Se uma morte digna do sofredor passa pela eutanásia, uma morte sem eutanásia de um sofredor passará a ser indigna. Os que escolherem sofrer até ao fim serão indignos ao olhos da sociedade. Não me revejo nestes valores.

 

 

  

  

 

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publicado às 09:59

Irmão de Gelo, Alicia Kopf

por FH, em 23.05.18

Neste primeiro romance de Kopf, vencedor de um prémio em Espanha, a protagonista, licenciada em arte, fala sobre si, sobre o seu irmão mais velho, que tem um atraso mental, sobre a mãe, que trata do irmão, sobre o pai, que se divorciou da mãe quando a protagonista ainda era miúda, e sobre o gelo.

Enfim, mais uma jovem mulher a braços com traumas familiares. Neste caso, uma cujo sentido de humor é nulo e que se leva demasiado a sério. Naturalmente é o centro do mundo e quando não é, chora-se. Vai alternando  os resultados das suas pesquisas sobre icebergs e expedições aos polos, com que a autora tenta, sem sucesso, fazer o paralelo com a natural indiferença do irmão pelo que o rodeia, com as suas transições femininas, com os habituais homens fracos por quem se vai apaixonando e com as habituais queixas geracionais acerca da falta de oportunidades.  

Escrito de modo competente, com rasgos formais interessantes, principalmente quando fala sobre o gelo, Kopf poderia encontrar em vários escritores portugueses quarentões, como Tordo, Peixoto ou mãe, outros eternos adolescentes afetivos com quem criar um clube de gente intelectualmente grave ou uma banda de garagem que, preferencialmente, tocasse os seus temas lamurientos, todos vestidos de preto e comparando tatuagens, com a porta fechada.

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publicado às 20:28

Reductio ad Brunum de Carvalhum

por FH, em 23.05.18

A cultura informal de vítima e conspiração que caracteriza os adeptos passou a formal através da Direção do clube. Primeiro externos, com o habitual Benfica e com a imprensa, e depois internos, certos adeptos e plantel, as más ações dos inimigos foram referidas e efabuladas a um nível nunca visto, o que levou a que a vítima extrema que existe em cada adeptos leonino atingisse tal patamar de revolta parante a injustiça que alguns se sentiram legitimados a agredir fisicamente os jogadores da equipa, algo que o presidente já tinha feito antes verbal e publicamente.

A magia do produto futebol é renovar-se todos os anos e a antecipação de uma nova época desportiva faz esquecer tudo o que se passou na anterior. A memória das coisas más é substituída de bom grado pela expetativa de se poder ser campeão. É muito provável que isso aconteça com este caso. Se tudo correr como é habitual, a Bruno Carvalho, não se demitindo, bastará ficar quieto e não ser notícia para manter o cargo de presidente e continuar a viver o seu sonho de menino. 

 

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publicado às 19:07

Descida Controlada - Parte 2

por FH, em 17.05.18

 

Dia 4

Sete e meia da manhã. Vou ao pão. Dou com um raio de luz à Mallick quando passo no jardim municipal. O brilho oscila entre a ramagem de uma árvore e penso que não pode ser, que não quero cair nessas referências contemplativas de personagem que, achando ter pouco tempo de vida, começa a querer mostrar aos outros que está mergulhado na beleza do mundo. Acharia esse raio de luz interessante fosse como fosse, numa porcaria de dia ou em pleno êxtase existencial. Falaria dele a J, como fazemos com nuvens, céus poentes, pássaros ou portões. A minha vida não está em risco, pelo menos que eu saiba, e este tique para o dramático incomoda-me. Usar coisas destas para tornar bonito o relato, para impressionar o leitor, não me agrada, nem aqui, nem na ficção que escrevo. Por isso, o raio de luz não importa, como também não importa aquele homem de capachinho óbvio. Tem uns sessenta anos e usa um fato antigo. Cospe para o chão sem pejo e é um momento feio. Também não quero vender a ninguém o degradado com o suposto valor intelectual do inefável a vida como ela é.

O comprimido que comecei a tomar está a fazer o seu efeito. O estômago está melhor.

Vou almoçar com a família e, perante a minha fraca figura, sou convencido a ir às urgências do Hospital Amadora-Sintra.

A médica sul ou centro americana que me vê é antipática e não fala bem português. A sua figura - o cabelo comprido preto, o metro e cinquenta, as unhas, a pintura exagerada - faz-me lembrar a de uma acompanhante de Joaquim de Almeida quando este faz de canastrão latino-americano de Hollywood. Mas a sua antipatia - tem uma expressão tão fechada e fala tão baixo que quase me faz rir - agrada-me e é eficiente. Todavia, há algo de irregular nesta situação. Olha para mim com receio. Quando volto para a sala de espera, já depois de me tirarem sangue, penso se a sua reserva não se deverá a eu parecer-lhe alguém do submundo do crime que vem vingar o Joaquim de Almeida por ela o ter traído num negócio em Miami.

Perto das oito das noite, agora que já passaram cinco horas desde que cheguei, a mulher chama-me e informa-me, sorrindo, que vou ter que ficar aqui até amanhã para ser visto pela «gastro». Uma auxiliar diz-me que me vai dar uma maca para passar a noite. Aceito com curiosidade a oferta, porque significa que me vou estrear como internado hospitalar, uma velha e incompreensível ambição pessoal de menino.

Antes da maca, porém, conheço o médico que se segue no turno à madrinha de casamento da sobrinha do Pablo Escobar. Trata-se de um homem de meia-idade, sem dúvida o resultado do cruzamento do ADN de Oliveira da Figueira com um dos meus vizinhos anónimos de fim-de-semana. Esforça-se para que eu não fique internado e medica-me como se não houvesse amanhã, o que eu não acredito nem por um minuto. Um deste, dois daquele, mais três minutos de conversa, mais um ainda deste também. Quando por fim me deito na maca, estou um pouco mole e a minha cabeça começa a latejar com uma valente dor de cabeça, indesejada habitual de demasiados dias da minha vida.

A sala quadrangular tem umas dez pessoas. As macas estão dispostas de um modo que me faz lembrar um cinema drive in muito peculiar em que espetadores aflitos, alguns idosos meio dementes, desligaram há muito o interruptor do bom senso e cortaram os fios elétricos que os ligavam à realidade. Um deles morde uma enfermeira. Uma outra murmura uma misteriosa ladainha sioux. Um outro, de boca e olhos abertos que não se mexem, dir-se-ia que faleceu não  fossem os gemidos guturais que de vez em quando solta para animar a minha esperança de estar numa fita de George Romero. A rapariga de uns trinta anos, que está na maca ao meu lado com os braços amarrados, vai chorando não sei se a tentativa frustrada de suicídio com comprimidos, se um arrependimento por algo mais profundo. É, no entanto, Mimo, que está à minha frente, cujo episódio desta mini-série me comove mais.

O Mimo está há meia-hora a dizer que se quer ir embora. Tem uns oitenta anos e uma valente infeção urinária. Insiste com a filha para que ela o leve para o elevador, embora não haja nenhum. Quando está nas mãos das enfermeiras grita que não quer ser medicado e que o querem matar. Dá para ver que a filha já chorou bastante e volta às lágrimas quando ele lhe começa a chamar burra. Soluçando, dá lugar a uma outra mulher cinquentenária que se aguenta muito melhor e que o consegue manter sem ser ordinário com uma atitude mais assertiva e um discurso articulado com que lhe explica que não deixam que ele saia dali naquele estado. Substitui-a, passados uns minutos, a esposa do Mimo. É ela que o chama assim. Tem uma voz terna que o acalma. É uma mulher com o cabelo todo branco, alta, que lhe faz festas na cara e lhe dá beijos e diz «Mimo, tu não és assim. Tu não gritas. Tu és um homem doce, Mimo. Não dizes palavrões.» É bonito. Na verdade, é comovente como tudo. Ele corresponde como pode, baixando a voz, tentando compreender o que não consegue, esforçando-se a sério, dá para ver por causa da sua confusão, por causa do choro envergonhado que de vez em quando o acomete, porque é ela, a companheira de uma vida que lhe garante que há algo de errado e que, como aconteceu tantas vezes nos últimos sessenta anos, é ele que não está  a ver bem as coisas. Sabe que tem de acreditar nela, embora desta vez, por alguma razão que lhe escapa, não seja tão fácil.

Adormeço já depois de o Mimo ser levado e, enquanto me vou, penso que o amor que une duas pessoas é uma forma poderosa de fé e que tenho muita sorte em o saber por experiência. Sinto falta de J, que teve de ir para casa para tomar conta das miúdas.

 

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publicado às 00:37

Descida Controlada - Parte 1

por FH, em 11.05.18

Dia 1 

Investigo. Os sintomas podem significar umas quatro condições, da hemorragia ao cancro. Caraças. Cancro? Consulto vários sites. Sim, é isso. Bolas, não estava nada à espera. Não dá jeito. Penso nas minhas duas filhas. Se eu me for rápido, é provável que a mais pequena nem se lembre de mim quando crescer. O que devo fazer? Esperar dois dias. Se os sintomas se mantiverem, ir ao médico.

Faz sentido. Ontem estava em forma. Subi as escadas do prédio, orgulhoso desta minha nova capacidade pulmonar de quasi-ex-fumador. Hoje fiquei cansado e tive de encostar-me à parede quando cheguei. Depois, sentei-me no sofá e, puf, apaguei, exausto de causa desconhecida. 

 

Dia 2

Cansado. Muito cansado. Estupidamente cansado para o meu orgulho masculino de pai, marido e irmão de três homens que fazem a meia-maratona. Não pode ser. Mas é. Como os sintomas que se mantém. Caraças, é mesmo.

Final do dia. Tenho de parar a meio a subida das escadas. Ofego. Tonto pela falta de oxigénio, nem me consigo chamar maricas por me dar ao desplante dondoca de não disfarçar quando entro em casa.

Começo a ligar as coisas. Esta dor no estômago a que já me habituei ao longo dos últimos meses deve ter alguma coisa a ver com os sintomas e com o cansaço. Esta, que me faz levantar à meia-noite e meia e que, depois de um cigarro, acalma quando me deito no sofá. Adormeço com telenovelas na cabeça acerca do que a minha morte poderá significar para as quatro pessoas para quem sou mesmo importante. Acordo perto da uma, satisfeito por a dor ter acalmado. Volto para a cama e adormeço a pensar no romance que enviei para aquele concurso da Leya. Tenho de me aguentar até Outubro, pelo menos. Não acho que vá ganhar, mas o mundo interior de cada um está cheio dessas impossibilidades. Afinal, pode passar-lhe alguma coisa pela vista, ao júri, e premiar o livro. 100 mil biscas. 75 depois de impostos, acho. Este ano recebi uns quarenta euros de direitos dos dois romances publicados. Dava jeito. Se fosse maricas, maricas a sério, passava este texto a colocar aqueles refrões à Lobo Antunes. De vez em quando colocava "Caraças" e outras "Cancro?" (assim mesmo, com a interrogação) e as pessoas, derretidas a lerem isto, embaladas pelo truque, a acharem o meu relato "muito bem escrito" e emocionadas e a deixarem comentários. Se os deixarem por causa da escrita são palermas.

Acordo. A mais velha grita por mim. São quatro da manhã. Pesadelo. "Anda. Levo-te para a nossa cama. Dormes com a mamã." Volto ao sofá. O seguro de vida paga a casa. A J não tem de se preocupar mais com isso. E o prémio. Faço as contas. Dava para uns dez anos, bem trabalhado. Pelo menos até as miúdas serem crescidas. 

"Pelo menos até as miúdas serem crescidas", digo a Deus enquanto oro. Faço-o todos os dias e nem sequer vou à igreja. Sou um ser religioso que acha que Deus não o tem como um dos Seus preferidos, mas que está agradecido por receber todo o amor, por mais pequeno que seja, e orientação que Ele me queira dispensar. Mas sei que as coisas não funcionam assim. Pelo menos comigo, Ele não costuma dar nenhuma prenda que eu peça. Tudo o que de bom me calhou, e é tanto, apareceu-me sem que eu pedisse. De qualquer modo, é curioso como vou buscar o pior cenário possível. Que Drama Queen tu me saíste, pá!  Por isso, digo-Lhe "Ajuda-me a estar à altura e a ser um instrumento da tua Vontade." Digo-o com o coração. Nunca precisei de mais e sei que é tudo o que é necessário. Adormeço.

 

Dia 3

A dor e o cansaço parecem ter instalado o seu centro operacional de um modo definitivo e, ao chegar ao emprego de manhã, estes dois novos companheiro estão em plena atividade. Quando os sintomas se repetem, abalo para o Centro de Saúde. 

Subo as escadas até ao quinto piso. Porque é que a mente resiste em alinhar com a realidade desta forma? Sento-me na sala de espera. Nuca encostada à parede. Olhos fechados. Ligeiras tonturas. Vou ouvindo os números das senhas e digo mentalmente o meu. Os pensamentos são muito pouco elaborados. Estou só contente por poder descansar.

Consigo consulta rapidamente depois de revelar os dados que tenho à minha disposição. A médica é açoriana e tem uma outra, talvez estagiária, com ela. Chego ao fim com análises para fazer, preferencialmente ainda hoje, uma receita de medicamento e uma credencial para uma endoscopia. Como se ela se lembrasse à última, como se achasse que embora não vá ser preciso, talvez não se perca nada em levar uma credencial para uma biópsia. A forma como o fez foi quase perfeita, mas ela não sabe que o meu hobby é escrever histórias e que sei que o que ela fez não passa de uma solução clássica de enredo. 

À tarde, quando vejo a minha filha do pesadelo, pergunto-lhe por este. Era um coelho que duplicava pessoas. Quando ele se aproximava dela, ela respondia, enxotando-o com pontapés. 

J está a trabalhar e acabei de deitar as miúdas. A barriga dói-me. Agora é diferente porque imagino o sangue a sair das paredes. Revejo os resultados das análises que recebi por email. É uma hemorragia no estômago. Agora não há dúvidas. Anemia por falta de sangue. A médica disse-me para ir ao hospital se a minha situação piorasse, que poderia ser perigoso perder sangue a mais. 

A mais pequena dorme no sofá ao meu lado. Uma boneca de pano e uma vaca fazem-lhe companhia. Sabe que estou doente e quis ficar a tomar conta de mim. Ressona. Tem 4 anos e sim, está a tomar conta de mim, embora não o saiba.

Estou contente por a minha escrita ser anónima. Já não escrevia sobre o dia-a-dia  há muito anos. 

 

 

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publicado às 21:27

Submissão, Michel Houllebecq

por FH, em 03.05.18

Chego, enfim, a Houllebecq, mais uma das minhas inúmeras leituras tardias.
Em 2022 um partido muçulmano, coligado com esquerda, chega ao poder em França para evitar que a Frente Nacional forme Governo. O protagonista e narrador é um professor universitário no início dos quarentas que se vê afetado pela prioridade do novo Executivo: a Educação. As escolas e universidades passam a estar submetidas aos costumes islâmicos e François, não sendo muçulmano, é convidado pela Sorbonne a rescindir contrato.
A sua vida sentimental, que ao longo dos anos foi alimentada por ligações breves com alunas, após a sua última namorada de 22 anos e ascendência judia ter partido com os pais para Israel, com receio de uma eventual vaga de anti-semitismo em França, caiu numa secura que ele tenta contrabalançar recorrendo a serviços de prostitutas.
O retrato de François traçado por Houllebecq é o de algumas pessoas que conheço, o que me admirou: o cinismo emocional, a incapacidade familiar, o medo da dor e da doença, a obsessão pela gastronomia e pelo luxo, o egoísmo assumido e o oportunismo cobarde que só se consegue encontrar em pessoas de classe média-alta.

Especialista na obra do escritor Huysmans, o narrador vai estabelecendo ligações entre este e as suas próprias lutas interiores. Em crise, recolhe-se mesmo num mosteiro, onde o seu objeto de estudo se refugiara no século XIX para uma vida de ascetismo. François, todavia, tem uma experiência que dura somente um par de dias devido à sua incapacidade de lidar com o desconforto e com a impossibilidade de fumar.

François acaba, por fim, por perceber as vantagens de se tornar muçulmano: voltar a ter o seu lugar de professor e aceder à poligamia. Converte-se por interesse e comodidade, como todos à sua volta. 
Mais do que uma especulação política, Submissão trata do oportunismo de que o ser-humano é capaz em beneficio do seu conforto individual. Indica-nos ainda como qualquer ideologia, neste caso o islamismo, não passa de uma forma de, sob a máscara de ideais superiores e pretensamente louváveis, muitos darem largas às suas ambições egoístas.

Houllebecq inverte neste livro escrito de um modo impecável a ideia tradicional de distopia. O foco não está na mudança social mas no modo como o egoísmo do protagonista se adapta a ele. Existem, de resto, muitas referências à sociedade francesa que, naturalmente, me escaparam.

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publicado às 10:49

Sangue na Neve, Jo Nesbo

por FH, em 29.04.18

Passada em 1978, esta novela de cerca de 150 páginas não tem como protagonista o detetive Harry Hole, merecidamente a galinha dos ovos de ouro do autor norueguês. O personagem principal e narrador de Sangue da Neve é um assassino profissional chamado Olav. Por ser um rapaz solitário, ou só por azar, apaixona-se pela esposa adúltera do patrão quando este lhe atribui a tarefa de a matar. O pior, no entanto, está ainda para vir. Enamorado à distância, Olav pensa estar a resolver o assunto ao assassinar o amante que vem a perceber ser o filho de um primeiro casamento do patrão. 

 A competência de Nesbo como autor de policiais é atestada pelos milhões de livros vendidos e neste quase tudo está não só como deveria estar como vai um pouco mais além. Olav é um protagonista com uma densidade e complexidade apreciáveis: o primeiro homem que matou foi o seu pai abusivo, gosta de ler, apesar de ser disléxico, e apresenta uma análise bastante pragmática das relações humanas e de si próprio. Os restantes personagens poderiam surgir como um aspeto menos conseguido por Nesbo devido a serem tão planos e poucos desenvolvidos, mas isso não acontece se tivermos em conta que a história é narrada por Olav. O que sabemos dos outros é o que ele sabe e, sendo ele um homem solitário e misantropo, isso reflete-se nas suas opiniões superficiais e na forma como acaba por ser algumas vezes enganado devido à sua má análise.

Tecnicamente, começando pela velha regra "Se no primeiro capítulo é referido um saxofone na sala, esse saxofone aparecerá mais à frente na história", cuja observância nesta novela é levada a um extremo, e terminando nos formidáveis, porque inesperados em absoluto, volte-face que o livro nos apresenta, não haveria nada a apontar, sendo talvez as duas únicas ressalvas a forma como Olav passa horas e horas a fazer coisas difíceis com uma hemorragia supostamente mortal e para um cena em particular em que uma mulher, vendo o marido e a filha ainda criança baleados, se vai abraçar a ele e não a ela, num momento em que, por mais boa vontade que o leitor tenha, a necessária suspensão de incredulidade se torna necessariamente ausente.

     

 

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publicado às 21:24

2003
V. foi trabalhar aos 13 anos para casa de uma família romena que possuía uma fábrica de ladrilhos. Enquanto me fala desse período, penso que tudo o que me conta parece pertencer a uma história de um romance da primeira parte do século passado. O membro tuberculoso que foi para um sanatório suíço, a família disfuncional, o ódio e violência entre irmão já adultos, o amigo alemão que vivia com uma namorada num anexo, o jovem suicida por mal de amor que, de vez em quando, dava boleia a V. até ao centro da cidade na sua mota side-car, a casa enorme com divisões fechadas, o jardim sempre bem cuidado e o fantasma com que V. me surpreende, uma vez que sei que não acredita nesse tipo de coisas, embora garanta que aquele era mesmo verdadeiro no seu arrastar de correntes pela casa, e que ela ouvia passar de noite junto à porta do seu pequeno quarto de criada. Divórcios, tragédias e rancores num bolo de infelicidade geral daquela família nessa longínqua década de 50, somente aplacada pela existência da criança, um pouco mais nova de que V., de que esta tratava. Talvez seja a memória dessa menina que a faz sorrir tanto enquanto fala.  
A sua ligação à família terminou quando V., com a ajuda de uma professora que a preparou para os exames, conseguiu fazer a 4ª classe e foi despedida quando disse à sua patroa que pretendia continuar a estudar. 

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publicado às 15:03

Voltar a casa mais velho 1

por FH, em 23.04.18

1986
Não sorri. Está incrivelmente magro, tem a roupa suja e cheira mal. P chegou há um minuto e noto que está desconfortável com a festa que lhe fazemos. Acaba de regressar do seu primeiro Interrail. Há pouco mais de um mês partiu com amigos para França. Esteve nas vindimas perto de Bordéus e, com o dinheiro ganho, foi fazer a seguir o que sempre sonhou, talvez não tanto conhecer outros lugares, mas simplesmente viajar.
Está em pé na sala, não se senta. Parece mesmo cansado e confuso como se não acreditasse ainda que conseguiu mesmo voltar a casa depois do que passou.

P Tem 19 anos mas parece-me ter envelhecido muito. É o olhar. Sim, é o olhar que está diferente.

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publicado às 10:27


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