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Um saco de pedras como gatilho

por FH, em 02.01.18

2006

Estamos a jantar. J relata-me o que aconteceu uns dias antes quando estava a dar uma das suas habituais caminhadas ao fim do dia. Um grupo de pretos apareceu a correr e deu-lhe com um saco cheio de pedras nas costas, tentando-o derrubar. Uma tentativa de assalto que não resultou, porque J é um homem alto e forte e não chegou a cair. De imediato, diz ele, ligou-se uma coisa dentro de si, uma coisa adormecida desde a guerra em Moçambique, e começou a gritar, insultando-os enquanto os perseguia dizendo que tinha uma arma e que os ia matar a todos. Diz-me isto com espanto por esse programa antigo ainda estar ativo dentro dele, à espera, como que adormecido.

Fala-me a seguir de como se lembra da cara de cada um dos rapazes por quem foi responsável. Diz-me, com alívio, sem orgulho, que não perdeu nenhum e que, felizmente, não tem consciência de ter morto alguém durante esses anos. Tenta explicar-me a seguir que o nível de camaradagem que então viveu nunca foi igualado em nenhuma outra fase da sua vida.

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publicado às 14:09


3 comentários

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De j.campião a 04.01.2018 às 15:45

Este foi o primeiro texto que li do teu blog. Inicialmente, chocou-me a frase "um grupo de pretos". Não sou racista e tenho preconceito contra o racismo, não o nego. Mas também sou capaz de admitir a honestidade, e a verdade é que o que li não me pareceu ter um intuito verdadeiramente racista. Depois li o resto, a referência à guerra colonial, e tenho que acrescentar que consigo não ser racista e ter um imenso respeito por quem teve que ir servir Portugal no ultramar. Gosto da honestidade que colocas nos teus textos. Obrigado por os partilhares.


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De FH a 04.01.2018 às 16:06

Obrigado. O termo não foi meu, foi de quem estava a falar comigo. Podia ter colocado em itálico ou entre aspas, para garantir que ninguém me achasse racista. Mas a verdade é que estes textos não são acerca de mim (daí o anonimato) mas acerca das pessoas que me rodeiam e que vou conhecendo, ou conheci, e às quais estou grato por alimentarem a minha curiosidade e me inspirarem com o que considero boas histórias.
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De j.campião a 04.01.2018 às 17:55

Foi isso que pensei. Obrigado. E foi isso que quis dizer, ou seja, quem proferiu a frase, tendo em conta o contexto, não estava a ser verdadeiramente racista...





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