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Um lobo sobre a laje 2

por FH, em 15.01.18

2018
Os adultos ficavam na aldeia e nos campos a trabalhar e eram as crianças que levavam os rebanhos a pastar para os montes. Conforme iam passando pelas casas, os rebanhos iam-se juntando.
V conta-me que uma vez viu um lobo. Tinha 4 anos e a irmã mais velha devia ter uns 7. Iam numa longa fila de crianças e cabras. A irmã seguia à cabeça do rebanho e V seguia na retaguarda, quando esta viu, sentado sobre uma enorme laje um grande lobo a olhar para o cortejo.
Assustada, V largou tudo e voltou a correr para casa. Ao chegar, o pai ralhou-lhe por ter deixado a irmã sozinha, mas não a obrigou a voltar. Quando lhe pergunto se voltou a ir, ela diz-me que sim, que acha que sim.
Enquanto V me conta isto, os seus olhos assumem uma gravidade rara, talvez por ainda rever na sua mente, passados 70 anos, o lobo.

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publicado às 13:53

Um lobo sobre a laje 1

por FH, em 15.01.18

1987

V tinha 7 anos quando o pai a mandou pela última vez levar as cabras a pastar. Nesse dia, saiu, como sempre, muito cedo com a irmã 3 anos mais velha. Quando chegaram ao cimo, avistaram um lobo que não deu por elas. As duas meninas assustaram-se e sentiram o lobo andando em cima da enorme laje sob a qual, entretanto, se tinham escondido. V fazia um esforço para não chorar enquanto a irmã a tentava manter calma.

Quando acharam que o lobo se tinha afastado, a mais velha correu monte abaixo, em direção à aldeia. Atrás dela, bastante mais lenta, V viu-se em pânico na sua fuga. Quando chegou à aldeia, chorosa, deu com o pai zangado com a irmã por a ter deixado sozinha.

Enquanto V me conta isto, os seus olhos assumem uma gravidade rara, não sei se pela atitude da irmã, se por ainda rever na sua mente, passados 40 anos, o lobo.

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publicado às 13:50

Dia de caça

por FH, em 27.12.17

1979

Sigo-a com uma gaiolinha colorida de plástico na mão, admirado com esta capacidade desconhecida de V.

Avançamos pelos caminhos entre os arbustos. De vez em quando, V para, atenta, orientando-se. Depois muda de direção, seguindo o cantar de um dos muitos grilos. Por fim, faz-me sinal para não fazer barulho e remexe cuidadosamente os caules de algumas ervas secas. Diz-me, sorrindo, sussurrando, que está ali um. Arranca uma erva alta e agacha-se. Vejo então um pequeno buraco na terra, onde ela insere a erva seca, incomodando o inseto, que se calou, até este sair. Com reflexos rápidos, V consegue apanhar o grilo com as mãos. Fascinado, o coração a bater muito depressa, abro a pequena porta da gaiola e ela coloca lá dentro o bicho.

Fico a olhar a nossa desorientada presa durante um bocado. O espaço é exíguo e atira-se contra as minúsculas grades. V recomenda-me que leve a gaiola com cuidado ao voltarmos.

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publicado às 09:30


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