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2003

Sento-me com R. É, talvez, a pessoa que conheço que sorri mais. Está no início dos vinte, lê muito e frequenta os alfarrabistas da baixa. Trata-os por tu e sabe histórias sobre o meio literário português que só deveriam estar ao alcance de um velho. Antes de falarmos sobre o que nos levou a encontrarmo-nos neste café do Chiado, perto da Faculdade das Belas Artes, conta-me as últimas do Herberto Hélder, que se recusa a falar de poesia com desconhecidos, e sobre um estranho boato que envolve António Lobo Antunes e Clara Ferreira Alves.          

Sempre sorrindo, diz-me então que o romance que lhe enviei não vale nada, o sorriso desvanecendo-se enquanto me aponta o dedo e acrescenta que eu escrevo demasiado bem para que não tente escrever algo grande. Talvez a minha expressão seja de desistência, embora na verdade não me sinta desanimado com as suas palavras. Agora está muito sério e parece sentir-se obrigado a dizer que o facto de eu escrever bem não me diz respeito, que, como qualquer mérito, diz respeito aos outros e que eu nunca poderei fazer nada quanto a isso. A minha obrigação é escrever, escrever algo magistral como o Grande Sertão Veredas.

Ao acender um cigarro defensivo, prometo a mim mesmo nunca ler nada de Guimarães Rosa.

 

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publicado às 12:03


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