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Rio Homem, André Gago

por FH, em 23.01.18

Apanhado pelas forças inimigas franquistas, Rogelio foge para Portugal, onde é acolhido na aldeia de Vilarinho das Furnas. Apaixona-se por uma mulher casada que está de passagem e com ela vive uma intensa e breve relação. Quando ela volta para o Porto, preferindo ficar com o marido e repudiando Rogelio, este fica triste. Essa tristeza será maior quando sabe que os pais morreram através de um companheiro galego de contrabando, atividade a que entretanto se dedica, e menor quando chega um antropólogo que não só o contrata como ajudante como também lhe arranja uma identificação portuguesa falsa. Um amigo do antropólogo, um escritor de Coimbra, torna-se também amigo de Rogelio, que lhe serve de guia em passeios pelas montanhas. Durante uma visita dos dois a uma mina de Volfrâmio, Rogelio decide lá ficar a trabalhar. Resolve depois comprovar a veracidade da notícia da morte dos pais, apesar de saber que se os franquistas o apanharem poderá ser executado, tanta entrar em Espanha, é apanhado e preso. Acabará por voltar a Vilarinho das Furnas após cumprir a sua pena de muitos anos. Passa então a viver solitária e silenciosamente.

A história é esta e poderia ser contada em 80 páginas. Em termos de ação, quando ela existe, a narrativa é fluída no assunto e no modo como é apresentada. Os diálogos são muito bem escritos.

Infelizmente, tudo o resto no livro é um pastel e desde cedo percebemos que o enredo é uma desculpa para falar de outros assuntos. E isto é de tal forma gritante, que no fim o nosso protagonista parece ser feito de cartão, o que faz sentido, porque demasiado tarde percebemos que a personagem principal, afinal, era outra.

O autor alonga-se de um modo inacreditável em profundidades filosóficas e psicológicas não só de Rogelio, mas também, enfim, da Humanidade em geral, que não há submarino de grande profundidade capaz de aguentar. A adversativa com os seus “mas”, “por outro lado” e todos os produtos similares, adquirem proporções raramente vistas, e ainda bem, em livros que supostamente tem um editor para ajudar o escritor a detetar o ridículo. Uma boa frase conseguiria condensar as quatro ou cinco páginas seguidas de reflexão e evitaria que o virar de página tivesse sido tantas vezes praticado pelas piores razões como aconteceu comigo.

Existem ainda as longas lições de História da II Guerra Mundial, muitas vezes escritas como que para pessoal em primeira visita ao nosso planeta.

E no fim percebe-se que o objetivo é falar de Vilarinho das Furnas, a aldeia comunal que foi submersa por uma das barragens construídas pelo Estado Novo e que era, na verdade, a personagem principal

Senti este livro como uma tragédia. Aqui está um bom escritor, alguém que sabe narrar, que domina a língua portuguesa e que tem uma imaginação competente, a estragar uma boa história com a ideia estapafúrdia de que enxurradas após enxurradas de complexidades psicológicas e lições de História universal para marcianos são coisas valorizáveis. Ideia, aliás, justificada por este livro ter sido finalista do Prémio Leya de 2010 e ter ganho o Prémio PEN Clube Portugal para Primeiro Romance, o que atesta bem do que é louvável para a nossa comunidade de júris literários: livros falhados desde que poéticos ou etnográficos (vide Nuno Camarneiro).

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publicado às 14:44



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