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Relatos do arroz e do zinco

por FH, em 07.02.18

2010

V e M passaram dois anos na Guiné a dar aulas na faculdade e acabam de voltar. M está doente, mas parece-me em forma. V está mais magra.
Sou incapaz de não me lembrar dos meus amigos e conhecidos guineenses enquanto estes meus dois queridos suburbanos lisboetas me falam de como é o quotidiano num dos países mais pobres do mundo. Aqueles jovens que eu conheço também tinham vivido assim e isso faz-me refletir: o seu modo de vida em Lisboa, que eu considero de uma grande dureza, é, apesar de tudo, melhor, mais confortável e seguro do que aquele em que cresceram.
O que M vai referindo como importante na Guiné, os sinais de riqueza, contém geradores a diesel, telhados de zinco e paredes de cimento. É norma sair de casa de manhã sem saber o que se vai conseguir arranjar para comer nesse dia. É norma as raparigas estarem habituadas a fazer favores sexuais em troca de notas na escola ou de um saco de arroz. É norma pagar ao polícia que interpela sem razão. É norma a violência.
M e V vão alternando apontamentos e a síntese é a de que as pessoas em Portugal se queixam de barriga cheia e que eles os dois, devido ao contraponto que agora são capazes de fazer, sabem que nunca mais irão fazê-lo. Por outro lado, referem uma amabilidade natural do povo, uma descomplicação de quem vive pacientemente o dia-a-dia.
Por fim, M refere a corrupção total, responsável, aliás, pelas ameaças de morte na faculdade que estiveram na origem do seu retorno.
Estão contentes por voltar. Portugal passou a ser um luxo.

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publicado às 13:38



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