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O coração fixo

por FH, em 01.02.18

1992
Sento-me à pequena mesa de madeira. Ligo o gravador. Pretendo guardar as suas palavras, as suas memórias.
J nasceu do outro lado do Atlântico numa terra ganha com esforço à floresta. Fala-me dos guaranis, com os quais conviveu, das rotinas do trabalho e da escola, das desconfianças entre as várias nacionalidades de emigrantes que aproveitaram a oferta de terras por parte de Péron. Descreve-me com limpidez o funcionamento do engenho do açúcar, pormenorizando o aspeto das máquinas, das plantações de chá mate e de como se tratavam e secavam as folhas de tabaco. Fala dos antepassados e da curiosa e multinacional árvore geneológica.
Os cinquenta anos que passaram desde que deixou a Argentina, desde que esteve com os seus irmãos e pais, parecem não contar enquanto me fala, sentada no sofá, nesta pequena sala desta pequena casa desta pequena aldeia deste pequeno país.
A seguir, para minha surpresa, J refere a grande paixão da sua vida. Foi um namoro que o seu pai proibiu por o homem ser russo e por ter sido devido aos russos que a família tinha saído da Finlândia. Haveria depois de surgir um português na loja do seu pai a perguntar se a irmã de J estava disponível, ao que o pai de J lhe disse que não, ressalvando que J, essa sim, não tinha namorado. Haveriam de casar, ela e o português, ter filhos e vir para Portugal.
Todavia, o olhar de J, o sorriso terno e quase envergonhado de J quando fala do jovem russo, é diferente de todos os que já lhe conheci.

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publicado às 14:26



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