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Esta ficção com quase 1000 páginas tem como narrador um ex-soldado nazi que conseguiu escapar ao fim da II Guerra Mundial com uma nova identidade. É um livro de  memórias a dois tempos: o da vida interior, marcada por uma obsessão sexual incestuosa pela irmã, e o da exterior, em que relata a sua vivência como SS durante o conflito. 

Aue, assim se chama o protagonista, participa na ofensiva alemã na Russia, está envolvido diretamente na questão judaica e vive os bombardeamentos de Berlim. Entre descrições pormenorizadas de execuções em massa na Ucrânia e na Polónia, Aue aponta exaustivamente as relações de poder entre os alemães, numa infindável correnteza de siglas e títulos, departamentos e gestos burocráticos, desfilando por nós Eichmann, Speer, Himmler e até o próprio Adolf Hitler. Aue acaba por os conhecer a todos e partilhar connosco a que ponto tão extremo pode chegar a vida de uma nação quando se fundam os seus alicerces numa ideologia. Foi por isso que levei o livro até ao fim, para que não me venha a esquecer do que é possível acontecer. É, de resto, uma leitura muito dura e não creio que seja para todos.  

Apesar da sua obsessão pela irmã, ou aliás, devido à sua obsessão pela irmã que não poderá ser consumada, Aue escolhe os homens como parceiros sexuais e, nesse aspeto, as suas descrições são gráficas de um modo quase gratuito.

Tudo neste livro é como que demais e, às tantas, cansado por sentir tanta repulsa pelas longas páginas a relatar episódios burocráticos, evoluções metodológicas das carnificinas e pela quantidade de vezes que Aue é sodomizado, perguntava-me como é que alguém consegue escrever algo assim. Isto é, o que teria movido Littell a avançar e continuar durante anos com a escrita deste relato aparentemente insuportável.

O penúltimo capítulo acabou por me responder. Aue é ferido e vai de licença para a casa de campo da irmã. Ela não está lá e ele passa algum tempo sozinho, deixando-se enredar numa teia de loucura cujo ponto mais radical, digamos assim, é quando se faz penetrar por um ramo de uma árvore. São páginas e páginas dos mais abjetos sonhos, atos e reflexões e, enquanto os evitava, virando as páginas, creio ter percebido, por fim, a tese e o propósito de Littell e, assim, o próprio Aue, que graças à sua diligência como soldado acaba por ser condecorado já no bunker de Hitler uns dias antes de este se suicidar. 

A guerra permitia a Aue não pensar nas suas questões. Enquanto está ao serviço de Himmler, basta-lhe cumprir ordens e atuar dentro das regras que lhe são dadas. A gratificação, o sentido da sua existência, vem dos seus relatórios, de existir algo sempre para fazer, seja regatear trabalho escravo judeu na Hungria para as fábricas de Speer, seja andar entre departamentos como moço de recados. Quando se encontra sozinho e de licença, Aue mata a mãe e o padrasto e tem ataques psicóticos que o fazem deambular nu pelos bosques depois de queimar de propósito os seus genitais com cera a ferver. Ao ser mais fácil ler sobre o extermínio de mulheres e crianças do que sobre o que faz Aue quando está entregue a si próprio, percebemos que é no íntimo pessoal que o horror para ele vive e que as tarefas que lhe dão, por obedecerem a um regulamento e a regras bem definidas, são mais fáceis de enfrentar.

Talvez Littell esteja a querer dizer-nos isso, a chamar a atenção para os motivos que fazem com que as ideologias triunfem: há muitas pessoas mal resolvidas para quem os movimentos gregários e o papel dentro deles pode surgir como uma salvação.

Em termos narrativos, Littell é bastante competente quando está em modo ação, interessante na descrição dos ambientes nos eventos que envolvem o Partido, incompetente nas divagações metafisicas de Aue e um estafermo à condição na forma como faz a história avançar. As últimas dez páginas são absurdas, mas talvez o possam ser, porque a condição referida é a própria memória de Aue, acerca da qual nos são dados alertas para que dela desconfiemos. E se for tudo mentira? E se o narrador não tiver sido mesmo um ex-SS e não passar de um farsante? Ou se Aue tiver sido mesmo SS, mas não tiver vivido nada do que relata? Assim se compreenderia essas últimas páginas em que, já com tanques soviéticos a percorrer as ruas, há como que uma diarreia de ação quase delirante em que tudo se mistura e em que as coisas acontecem de um modo comprimido, em que personagens aparecem vindas do nada, inacreditáveis, e em que Aue corre de um lado para o outro por uma Berlim destruída e termina no jardim zoológico com zebras e hipopótamos a passarem por ele enquanto mata o seu melhor amigo para lhe roubar a identidade. 

Como nota pessoal, não posso deixar de me auto-elogiar por não ter falado nesta opinião de Anna Harendt ou do "problema do mal".

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publicado às 09:34


2 comentários

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De Anónimo a 09.02.2018 às 11:11

«A guerra permitia a Aue não pensar nas suas questões. Enquanto está ao serviço de Himmler, basta-lhe cumprir ordens e atuar dentro das regras que lhe são dadas.»

concordo.
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De P. P. a 10.02.2018 às 00:16

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