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Passar como adulto por um romance em que não se encontra qualquer mácula ou sinal de preguiça também me aconteceu com A Conspiração Contra a América, de Philip Roth. Até hoje só se tinha verificado com Herzog, de Saul Bellow, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Austerlitz, de Sebald..

Num exercício de adiamento de recompensa, ou talvez administrando doses garantidas de espanto que me façam querer continuar a escrever ficção, existem autores que vou deixando para mais tarde. Dos portugueses, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Assis Pacheco, Mário de Carvalho e, principalmente, Agustina Bessa Luis são alguns exemplos. Entre os estrangeiros, e entre outros, Vargas Llosa, Bernhard, Proust, Thomas Mann, Updike e Houellebecq.

Dentro deste último tipo, adiei também a leitura de Roth. Até agora.

A história contada passa-se nos Estados Unidos durante o início dos anos quarenta do século passado. O narrador, Philip, recorda esse período da sua vida em Newark quando tinha sete anos, relatando os acontecimentos no país e como a sua família os viveu.

Partindo da premissa de uma realidade alternativa, em que Charles Lindbergh, não só o herói americano da primeira travessia aérea a solo do Atlântico, mas também aberto anti-semita, supremacista branco e simpatizante nazi, foi eleito presidente do país em 1940, o autor desenvolve uma crescente perseguição aos judeus norte-americanos que afeta diretamente a família judia Roth, desde a primeira perceção, durante a uma viagem a Washington em que os seus quartos de hotel são atribuídos a outras pessoas sem nenhum tipo de justificação, até ao clímax da violência, em que judeus são assassinados nas ruas por milícias. Ao mesmo tempo, intercalando assuntos, os factos alternativos da história americana, como a sua neutralidade durante a II Guerra Mundial e os pactos com Hitler, vão sendo desenrolados, pondo a nu, lentamente, um plano, não só para enfraquecer as comunidades judaicas como para importar o fascismo para os Estados Unidos.

Não tendo lido qualquer outro livro do autor, não o posso colocar sob perspetiva no conjunto da sua obra. Este seu vigésimo romance foi publicado em 2004 e para trás, numa carreira que começou em 1959, existem outros títulos que sei bem diversos.

A escrita de Roth é magnífica e sem mácula. Existem frases longuíssimas tão bem urdidas que parecem frases curtas. Há descrições de tal modo competentes sobre a Newark de 1940 que quase parecem inacreditáveis. Há listas de bíblicas proporções de nomes de personalidades que atendem a festas, presentes em cerimónias públicas ou registadas como simpatizantes políticos que deslizam sem custo pela leitura. Os diálogos são magistrais, certos e ponderados. A ação avança sem dificuldade, numa mecânica de relógio suíço e às tantas, estando tudo tão bem feito, tão bem pensado e escrito, estamos a considerar que tudo aquilo é História.

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publicado às 14:56


2 comentários

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De Anónimo a 13.01.2018 às 21:00

Li esse livro já lá vão alguns anos. Na altura achei esse exercício de imaginação uma obra formidável, na medida em que se conjectura como seria o mundo se os seus caminhos tivessem sido outros. Contudo, estando em 2018 com Trump como presidente, temo que a realidade tenha de algum modo subjugado a informação. De Roth recomendo também o "Teatro de Sabbath".
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De FH a 14.01.2018 às 12:49

O Homem do Castelo Alto, Philip K. Dick, que já li há uns anos, aborda um pouco a mesma temática, mas projetada no futuro, com uns Estados Unidos sob dominio nazi e nipónico depois do Eixo ter ganho a II Guerra Mundial. Com as devidas diferenças de estilo e de qualidade, também me agradou bastante.
Obrigado pelo comentário e pela recomendação.

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