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O miniaturista

por FH, em 31.12.17

2016

As imagens deslizam para a esquerda. O dedo suave de P passa de um lado ao outro do pequeno ecrã, parece-me que com respeito, talvez orgulho. Mostra-me alguns dos seus trabalhos, a forma como ocupa os seus sábados. É um miniaturista que constrói cenários com réplicas de automóveis antigos. São à escala 1:43 mas também trabalha com 1:24, pormenoriza. 

Um prédio antigo, a estrada nevada, caixotes encostados a uma parede e uma carrinha citröen cinzenta com a porta aberta num descarregar que ficou a meio.  Uma imagem a preto e branco de uma casa de campo em inglaterra com um Jaguar estacionado à porta. Um ferro-velho com um amolgado volskwagen carocha vermelho e sem vidros. Seguem-se outros produtos da sua imaginação, cada um diferente do anterior: praias, deserto, floresta, cidade, campo, bombas de gasolina ou garagens de contrabandistas durante a Lei Seca dos Estados Unidos.

P constrói os cenários, tira as fotografias, trabalha-as no photoshop e depois publica-as no instagram.Ultrapassou esta semana os 1000 seguidores, diz-me com uma nítida falsa casualidade, obrigatória pelos seus quase 60 anos de idade.    

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publicado às 10:32

A leitura da mão

por FH, em 30.12.17

2001

Diz-me para estender a mão direita com a palma virada para cima. S gosta de Sibelius e da cultura japonesa, é uma especialista de banda desenhada, um ponto em comum que facilitou a nossa amizade, tem um riso desregulado que me diverte e é muito fisica nas manifestações de satisfação com as pessoas que a rodeiam. 

A avó dela é cigana e aparentemente ter-lhe-á transmitido os segredos da linhas das mãos. É isso que ela se propõe fazer nesta nossa hora de almoço: ler o meu futuro.

Enquanto olha com atenção, vai-me explicando o que indica cada linha e a sua conjugação com outras. Vou-me casar de novo, algo quase ofensivo tendo em conta o momento que passo, e isso vai acontecer entre os 35 e os 40 anos de idade. Vou ter mais duas filhas, o que é impensável e que me transmite uma súbita sensação de enjoo. Diz ainda que por volta dos 70 me irá acontecer algo grande, um reconhecimento publico geral que ela não sabe precisar.

De repente, os seus olhos abrem-se, como se tivesse visto qualquer coisa potente, e pousa-a em cima da mesa. Ri-se quase descontroladamente e à minha curiosidade responde que não me pode dizer o que viu. 

 

 

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publicado às 21:07

2003

Sento-me com R. É, talvez, a pessoa que conheço que sorri mais. Está no início dos vinte, lê muito e frequenta os alfarrabistas da baixa. Trata-os por tu e sabe histórias sobre o meio literário português que só deveriam estar ao alcance de um velho. Antes de falarmos sobre o que nos levou a encontrarmo-nos neste café do Chiado, perto da Faculdade das Belas Artes, conta-me as últimas do Herberto Hélder, que se recusa a falar de poesia com desconhecidos, e sobre um estranho boato que envolve António Lobo Antunes e Clara Ferreira Alves.          

Sempre sorrindo, diz-me então que o romance que lhe enviei não vale nada, o sorriso desvanecendo-se enquanto me aponta o dedo e acrescenta que eu escrevo demasiado bem para que não tente escrever algo grande. Talvez a minha expressão seja de desistência, embora na verdade não me sinta desanimado com as suas palavras. Agora está muito sério e parece sentir-se obrigado a dizer que o facto de eu escrever bem não me diz respeito, que, como qualquer mérito, diz respeito aos outros e que eu nunca poderei fazer nada quanto a isso. A minha obrigação é escrever, escrever algo magistral como o Grande Sertão Veredas.

Ao acender um cigarro defensivo, prometo a mim mesmo nunca ler nada de Guimarães Rosa.

 

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publicado às 12:03

Hoje não haverá violência

por FH, em 28.12.17

1980 

É de noite. O vizinho foi carregado da taberna por dois amigos que estão menos bêbedos do que ele. Tocaram em todas as campainhas do prédio, pedindo ajuda para o levar para cima. J, o nosso vizinho da frente, aparece à porta de pijama e desce de imediato, com ar de enfado. É um homem grande, de poucas palavras e muita força,  o ideal para carregar móveis e alcoólicos sem travão escadas acima no nosso prédio sem elevador.

O bêbedo lamenta-se na língua enrolada dos bêbedos enquanto J o carrega desde a porta da rua até ao último andar. Leva-o sobre as costas, como um saco de cimento constituído de gordura, camisa desfraldada, uma frustração pessoal definitiva e irrevogável e calças urinadas. Enquanto J sobe, vai passando pelas portas abertas supostamente para se saber se é preciso ajuda nalguma coisa. Faz-me lembrar Cristo a caminho do Gólgota, com a diferença de que, em vez da cruz e de judeus cuspindo morte, carrega, perante os vizinhos invejosos da sua força, um homem que anda sempre triste, não faz ondas e que bate na mulher quando bebe um pouco.

Depois de entregar o homem à mulher, J diz as únicas palavras durante todo o episódio, recomendando que agora o deixem voltar a dormir.

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publicado às 12:58

Dia de caça

por FH, em 27.12.17

1979

Sigo-a com uma gaiolinha colorida de plástico na mão, admirado com esta capacidade desconhecida de V.

Avançamos pelos caminhos entre os arbustos. De vez em quando, V para, atenta, orientando-se. Depois muda de direção, seguindo o cantar de um dos muitos grilos. Por fim, faz-me sinal para não fazer barulho e remexe cuidadosamente os caules de algumas ervas secas. Diz-me, sorrindo, sussurrando, que está ali um. Arranca uma erva alta e agacha-se. Vejo então um pequeno buraco na terra, onde ela insere a erva seca, incomodando o inseto, que se calou, até este sair. Com reflexos rápidos, V consegue apanhar o grilo com as mãos. Fascinado, o coração a bater muito depressa, abro a pequena porta da gaiola e ela coloca lá dentro o bicho.

Fico a olhar a nossa desorientada presa durante um bocado. O espaço é exíguo e atira-se contra as minúsculas grades. V recomenda-me que leve a gaiola com cuidado ao voltarmos.

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publicado às 09:30

2017

P está há um ano na China. Vive numa cidade com 17 milhões de habitantes. Somos três a escutá-lo enquanto responde às nossas perguntas. Primeiro fala de comboios-bala capazes de fazer quinhentos quilómetros em hora e meia e de como os transportes são extraordinários, quer na sua utilidade como na pontualidade. Diz que em comparação com Berlim, onde esteve há dias, e onde viu bastantes mendigos, na China não se vê nenhum. A seguir refere como o governo conseguiu tirar 700 milhões de pessoas da pobreza, puxando-as para a classe-média. A tecnologia mais avançada é omnipresente. Já praticamente não se usam dinheiro e cartões, substituídos pelo telemóvel em quase tudo o que é pagamentos.

Parece que P esteve no futuro e voltou. Talvez seja isso que sente, com o seu ar quase comprometido e pesaroso, quando diz que a Europa nem se apercebe de como está atrasada e que eles, os chineses, nos irão dominar a curto prazo, que não temos hipóteses de virar o jogo, que são implacáveis e que estão a construir uma teia à qual não poderemos escapar. 

Por fim, perguntam-lhe pelas pessoas. P sorri e diz que elas são de uma amabilidade e prestabilidade total, dos melhores povos que já conheceu.

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publicado às 11:21

O cuidador

por FH, em 25.12.17

1988

A noite de véspera de Natal avança. Uma gripe deixou-me em casa. A família juntou-se toda e eu fiquei, recusando companhia para que ninguém se sacrificasse por minha causa. Estou deitado no escuro do quarto. Não penso em nada.
Oiço ao longe a porta da rua a abrir e fechar. O estado febril e a sonolência deixam-me indolente ao que pode ser um assaltante, mesmo depois de ver, pela porta entreaberta, que a luz do corredor foi acesa.
M entra, cuidadoso, tateando o meu sono. Ao ver-me acordado, pergunta-me como estou. Usa uma voz de carinho rara. Saiu da festa familiar, que decorre a trinta quilómetros, para ver se está tudo bem comigo.
Vai buscar um chá quente, pousa-o na mesa de cabeceira e certifica-se de que estou confortável. Hesita em sair, propondo-me sem palavras a sua companhia durante o resto da noite. Eu recuso, virando-me para o lado, dizendo que vou dormir e que fico bem. Ele apaga a luz e sai, voltando para o jantar de Natal. Seguro as lágrimas até ouvir o seu carro a arrancar, comovido pelo seu gesto. 

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publicado às 10:36

Caballo Baio

por FH, em 24.12.17

2002

A menina de três anos senta-se ao seu colo e a velhice já tão adiantada de J aconchega-se a ela. Começa uma canção aprendida há oito décadas atrás, do outro lado do oceano, num lugar de terra vermelha ganho num braço de ferro à floresta.
Há alguns anos que está cativa no sofá. É o pagamento final por uma queda de árvore mal planeada que lhe danificou as pernas quando era adolescente. Durante o resto da vida coxeou e agora, quase no fim, o esforço de J deixou de ser suficiente.
A sua voz é já fina, um sopro morno. Canta sobre um cavalo baio,que não sei o que significa, que se perde na floresta. Os seus olhos muito azuis, pequeninos, sorriem. Talvez se pudesse pensar que está a passear de novo pelos campos de chá ou a dar café aos trabalhadores de madrugada antes da jornada começar. Mas não. Tenho certeza de que está aqui, bem presente, segurando a criança no seu colo.
A menina tem a cabeça encostada ao seu peito e um olhar atento como se percebesse o que J diz. 

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publicado às 10:46

Uma viagem, duas viagens

por FH, em 23.12.17

2017

Estamos junto ao carro. Antes de nos despedirmos, J diz-me que teve uma experiência estranha. Tem oitenta anos e viajou sozinho para o funeral de um homem que foi decisivo na sua vida. Desde que se mudara para Lisboa que não voltara a Matosinhos. Há cinquenta e cinco anos que não pisava aquelas ruas. Não voltara, também, a falar com o seu mentor.

Ao passar em frente do local onde ficava a casa onde cresceu, e que agora já não existe, sentara-se num banco de paragem de autocarro e vivera de novo os sons e as pessoas de há tantas décadas atrás. É um homem contido, mas dizia-mo de lágrimas a quererem brotar, lembrando a experiência quase mistica. Vira o seu irmão, com uns sete anos, a sair a correr de casa para fazer um recado. O cheiro das conserveiras e da lota impregnara de novo o ar. A mãe passara pela janela dessa casa que já não existe. Os amigos de calções tinham brincado no meio da rua com os carrinhos de lata e diz-me os seus nomes. O céu estava diferente na cor. A memória substituía sensorialmente o que estava à sua volta e o cérebro, ou talvez, quem sabe, a sua alma, tinha sido arrastado no tempo. 

J nunca foi um homem que jogasse na equipa da nostalgia. O passado tão díficil, e que o presenteara com a orfandade precoce de pai, nunca teve o poder de o atrasar. Sempre viveu o momento presente com uma energia de bondade. Todavia, enquanto enxuga os olhos, diz-me que devia ter sido mais próximo dos irmãos e dos seus próprios filhos. 

Sim, J não é um homem de lamentos e por isso estranho as suas palavras. Antes de me estender a mão, e cada um ir para seu lado, confessa-me que ultimamente dá por si a recordar demasiadas vezes e acrescenta que talvez isso signifique que o seu tempo está perto do fim. Mas isso não parece ser o mais importante. Parece-me que o fundamental é que tem a expressão sincera de espanto de quem se apercebeu tarde demais de que houve algo estrutural que lhe escapou.

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publicado às 13:13

A luz sobre o urso

por FH, em 22.12.17

2016

A F, o seu ar afável e cordial de sempre protege-o de algo a que nunca assisti. Sei que tem inimizades e inimigos. Por vezes, no meio de conversas que temos, a sua expressão cai por momentos, grave, atenta à necessidade de um reflexo de defesa. Mas depois parece aperceber-se de que sou só eu quem com ele fala e que a minha falta de traquejo intelectual me faz inofensivo. Em quantas disputas e discussões já terá participado para que o seu instinto se sinta ameaçado desta forma? As suas fúrias devem ser fenomenais. 

Estamos os dois sentados a fumar depois de almoço e começa a falar de Nemésio e das suas descrições da paisagem açoriana. Os olhos sorriem, juvenis, absurdos na luz que lançam sobre o seu corpo enorme de urso a meio dos cinquenta. Divaga sobre como a natureza se eclipsou da literatura nacional. A seguir traz Camilo e Brandão, lamentoso daquilo que já ninguém escreve.

Momentos depois diz-me que quando lê Jo Nesbo, imagina Harry Hole, o detetive da série, com a minha aparência. Não sou sofisticado e rio-me. É um homem inteligente e pode ser uma indireta, uma forma de gozar comigo sem que eu me aperceba. É um conversador e contador de histórias incrível.  Não interessa se me goza. Fico satisfeito. Sou fã de Harry Hole e F. é alguém ao pé de quem nunca me aborreço.  
 

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publicado às 23:43


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