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1984
M conta-me a sua aventura do alto dos seus quinze anos.
Saiu de casa de madrugada. Deixou um bilhete aos pais a dizer que já era adulto e que estes não se preocupassem. Apanhou boleia de um camionista na EN1 e foi até ao Porto. Apareceu de surpresa em casa dos tios para jantar e estes, estranhando verem-no tão longe de casa, telefonaram aos pais de M, mas este já se tinha posto a caminho do seu destino, Vila do Conde, onde haveria de dormir ao relento na praia.
Comprou, na manhã seguinte, um bilhete para as corridas do campeonato nacional de velocidade. M é um apaixonado pelas competições automóveis e já me levou algumas vezes a ver rallies a Sintra e corridas ao Autódromo do Estoril.
No fim das provas, ao final da tarde, aproximou-se dos pilotos e mecânicos que arrumavam o material e pediu boleia para Lisboa. Um deles, Mário Silva, disse-lhe que o levava e, nessa noite, após um dia de quase completo jejum, uma vez que o dinheiro que levara era à justa para o bilhete das corridas, acabou por jantar rosbife com os pilotos num restaurante de luxo.
M surgiu em casa de madrugada, a mãe chorando o alívio das mais de vinte e quatro horas de insana preocupação que não a deixaram dormir.
Enquanto me conta a sua aventura, o ar de M é de naturalidade, como se fosse habitual fazer coisas assim. Mas eu, que sou cinco anos mais novo, não acho nada normal o que ele fez. Pelo contrário, acho que é a história mais espantosa e corajosa que já alguma vez me contaram.

 

VilaDoConde84.jpg

 

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publicado às 11:28

Um lobo sobre a laje 2

por FH, em 15.01.18

2018
Os adultos ficavam na aldeia e nos campos a trabalhar e eram as crianças que levavam os rebanhos a pastar para os montes. Conforme iam passando pelas casas, os rebanhos iam-se juntando.
V conta-me que uma vez viu um lobo. Tinha 4 anos e a irmã mais velha devia ter uns 7. Iam numa longa fila de crianças e cabras. A irmã seguia à cabeça do rebanho e V seguia na retaguarda, quando esta viu, sentado sobre uma enorme laje um grande lobo a olhar para o cortejo.
Assustada, V largou tudo e voltou a correr para casa. Ao chegar, o pai ralhou-lhe por ter deixado a irmã sozinha, mas não a obrigou a voltar. Quando lhe pergunto se voltou a ir, ela diz-me que sim, que acha que sim.
Enquanto V me conta isto, os seus olhos assumem uma gravidade rara, talvez por ainda rever na sua mente, passados 70 anos, o lobo.

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publicado às 13:53

Um lobo sobre a laje 1

por FH, em 15.01.18

1987

V tinha 7 anos quando o pai a mandou pela última vez levar as cabras a pastar. Nesse dia, saiu, como sempre, muito cedo com a irmã 3 anos mais velha. Quando chegaram ao cimo, avistaram um lobo que não deu por elas. As duas meninas assustaram-se e sentiram o lobo andando em cima da enorme laje sob a qual, entretanto, se tinham escondido. V fazia um esforço para não chorar enquanto a irmã a tentava manter calma.

Quando acharam que o lobo se tinha afastado, a mais velha correu monte abaixo, em direção à aldeia. Atrás dela, bastante mais lenta, V viu-se em pânico na sua fuga. Quando chegou à aldeia, chorosa, deu com o pai zangado com a irmã por a ter deixado sozinha.

Enquanto V me conta isto, os seus olhos assumem uma gravidade rara, não sei se pela atitude da irmã, se por ainda rever na sua mente, passados 40 anos, o lobo.

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publicado às 13:50

Passar como adulto por um romance em que não se encontra qualquer mácula ou sinal de preguiça também me aconteceu com A Conspiração Contra a América, de Philip Roth. Até hoje só se tinha verificado com Herzog, de Saul Bellow, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Austerlitz, de Sebald..

Num exercício de adiamento de recompensa, ou talvez administrando doses garantidas de espanto que me façam querer continuar a escrever ficção, existem autores que vou deixando para mais tarde. Dos portugueses, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Assis Pacheco, Mário de Carvalho e, principalmente, Agustina Bessa Luis são alguns exemplos. Entre os estrangeiros, e entre outros, Vargas Llosa, Bernhard, Proust, Thomas Mann, Updike e Houellebecq.

Dentro deste último tipo, adiei também a leitura de Roth. Até agora.

A história contada passa-se nos Estados Unidos durante o início dos anos quarenta do século passado. O narrador, Philip, recorda esse período da sua vida em Newark quando tinha sete anos, relatando os acontecimentos no país e como a sua família os viveu.

Partindo da premissa de uma realidade alternativa, em que Charles Lindbergh, não só o herói americano da primeira travessia aérea a solo do Atlântico, mas também aberto anti-semita, supremacista branco e simpatizante nazi, foi eleito presidente do país em 1940, o autor desenvolve uma crescente perseguição aos judeus norte-americanos que afeta diretamente a família judia Roth, desde a primeira perceção, durante a uma viagem a Washington em que os seus quartos de hotel são atribuídos a outras pessoas sem nenhum tipo de justificação, até ao clímax da violência, em que judeus são assassinados nas ruas por milícias. Ao mesmo tempo, intercalando assuntos, os factos alternativos da história americana, como a sua neutralidade durante a II Guerra Mundial e os pactos com Hitler, vão sendo desenrolados, pondo a nu, lentamente, um plano, não só para enfraquecer as comunidades judaicas como para importar o fascismo para os Estados Unidos.

Não tendo lido qualquer outro livro do autor, não o posso colocar sob perspetiva no conjunto da sua obra. Este seu vigésimo romance foi publicado em 2004 e para trás, numa carreira que começou em 1959, existem outros títulos que sei bem diversos.

A escrita de Roth é magnífica e sem mácula. Existem frases longuíssimas tão bem urdidas que parecem frases curtas. Há descrições de tal modo competentes sobre a Newark de 1940 que quase parecem inacreditáveis. Há listas de bíblicas proporções de nomes de personalidades que atendem a festas, presentes em cerimónias públicas ou registadas como simpatizantes políticos que deslizam sem custo pela leitura. Os diálogos são magistrais, certos e ponderados. A ação avança sem dificuldade, numa mecânica de relógio suíço e às tantas, estando tudo tão bem feito, tão bem pensado e escrito, estamos a considerar que tudo aquilo é História.

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publicado às 14:56

O combustível do maratonista

por FH, em 11.01.18

2015

P começou por treinar para corridas de 10 quilómetros, depois para a meia-maratona e agora conseguiu, quase aos cinquenta, o sonho de completar a maratona.

Se lhe pergunto porque o faz, diz-me que é só uma questão de objetivos. Existe sofrimento, confirma. Existe também desconforto quando vai correr sozinho à noite, faça chuva ou calor, duas vezes por semana. As melhorias de tempos, o completar uma determinada distância em menos minutos do que da última vez, parece ser o combustível de que se alimenta esta sua vontade. São alvos para que aponta em solidão e que em solidão celebra. Durante as provas, os outros corredores não são adversários e a classificação não existe. Está ali para saber se se consegue atirar a si próprio a uma distância de 42 quilómetros, se tem a força fisica e mental para se arremessar tão longe.

No vídeo da maratona de Lisboa, quando está quase a cortar a meta, anónimo entre outros quase a passo, P faz um último sprint e corta a meta desse sonho de vida com os braços no ar, vitorioso.

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publicado às 12:27

Os acordos secretos com o Mar

por FH, em 09.01.18

2018

A onda começa a enrolar e o homem desaparece atrás da espuma. A imagem continua a seguir durante alguns segundos o branco que vai caindo sobre o verde, acreditando que o surfista está lá ainda, deslizando com o coração a bater muito depressa sob o teto encurvado da onda.

J faz filmes de surf. Também surfista, viaja muitas vezes sozinho para lugares perto e longe, com o objetivo de captar os gestos dos homens e do mar. Fala-me de viagens de autocaravana, de noites dormidas na praia, do aspeto quase místico, da tranquilidade de quando se está no mar, de dias inteiros passados sozinho em praias surfando, comendo e esperando.

O homem sai finalmente do tubo, numa graciosidade respeitosa, não de alguém que venceu, mas de quem negociou algo de específico e secreto com alguém muito mais poderoso . O homem ainda não sabe, mas irá comprar aquela filmagem a J por causa dos seus patrocinadores.

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publicado às 11:03

O gigante e o cogumelo

por FH, em 08.01.18

2015

Já não estava com R há algum tempo. O Parque da Pena está deliciosamente deserto nesta manhã de domingo. Paramos perto da estátua do Gigante e ele fala-me das suas experiências com cogumelos. Como sempre o conheci como um crítico da utilização de substâncias que alterem a consciência, estou admirado, até porque me mostra a sua própria cultura proibida na casa em que mora na Alemanha, para onde emigrou há dois anos. Além de nomes de compostos químicos, refere siglas atrás umas das outras, das quais só reconheço o DMT.

R está entusiasmado e mais fica quando descreve uma sua experiência com LSD. Entrou na casa-de-banho e tudo o que via estava representado por wireframe, isto é, havia as linhas a delimitar as formas das torneiras, do espelho e dos outros objetos. Era como estar dentro do Tron ou de uma imagem Cad, mas sem as cores, tenta explicar.

Artista, pintor, músico, mas ganhando a vida a limpar um pavilhão desportivo, praticante do poliamor e de ju jitsu, ao fim destes anos todos R continua a surpreender-me, agora com a sua exploração de estados alterados de consciência e profunda admiração por Terence McKenna e Timothy Leary.  

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publicado às 14:00

Uma Estação Espacial

por FH, em 04.01.18

2017
Conseguiu falar com a Croácia a partir de Lisboa e isso parece ser um feito notável. J é radioamador, um hobby que tem desde os seus tempos de escuteiro.
Explica-me a Física, como as ondas são e se propagam, a mecânica, como os aparelhos costumam ser modificados para este ou aquele efeito, o aspeto social, os concursos, associações e almoçaradas, e a lei que a ANACOM tem a responsabilidade de fazer cumprir. As frequências e os canais são caminhos em que pessoas podem combinar encontrar-se ou onde se pode procurar desconhecidos com quem conversar, explica-me, parece que um pouco desiludido perante uma pergunta tão básica que lhe faço.
J fala com assertividade do papel que os radioamadores anónimos têm tido ao longo da história na sinalização de acidentes e catástrofes. Diz que há sempre muita gente à escuta, que eu não faço ideia de quanta e que nos Estados Unidos toda a gente tem um rádio.
Então, pisca o olho e diz-me, como se me apresentasse algo de grande valor, que os radioamadores são os únicos autorizados a falar com os astronautas. Para o provar, saca do telemóvel e mostra-me um vídeo de uma criança africana que tem um rádio construído por si com que consegue comunicar com a estação espacial. Hesito e acabo por não lhe perguntar se ele alguma vez o fez.

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publicado às 14:36

Ondas hertzianas de paixão

por FH, em 03.01.18

2017

Ambos com várias experiências de emprego diferentes, converso com P sobre o que cada um gostou mais de fazer em termos profissionais. Para ele foi trabalhar na rádio.

De voz profunda, grave, apresenta um sorriso diferente, parece-me que nostálgico, quando discorre sobre os seus tempos de locutor e de diretor de programação. Fala-me de episódios em que teve de ler as noticias e, colmatando faltas de pessoal, improvisar programas para donas de casa ou apoio a relatos de futebol.

Os seus olhos, embora sorridentes, parecem também um pouco tristes enquanto me fala de um mundo anterior ao digital, sem playlists, em que a emissão tinha de ser assegurada fosse por quem quer que fosse e em que se lia a publicidade em cartões e recebia as noticias por telex.

Trabalhava quase todos os dias dez a doze horas por dia e abandonou a rádio quando chegou o momento em que teve de escolher entre ela e a sua família. Diz-me que era realmente um vicio.

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publicado às 09:23

Um saco de pedras como gatilho

por FH, em 02.01.18

2006

Estamos a jantar. J relata-me o que aconteceu uns dias antes quando estava a dar uma das suas habituais caminhadas ao fim do dia. Um grupo de pretos apareceu a correr e deu-lhe com um saco cheio de pedras nas costas, tentando-o derrubar. Uma tentativa de assalto que não resultou, porque J é um homem alto e forte e não chegou a cair. De imediato, diz ele, ligou-se uma coisa dentro de si, uma coisa adormecida desde a guerra em Moçambique, e começou a gritar, insultando-os enquanto os perseguia dizendo que tinha uma arma e que os ia matar a todos. Diz-me isto com espanto por esse programa antigo ainda estar ativo dentro dele, à espera, como que adormecido.

Fala-me a seguir de como se lembra da cara de cada um dos rapazes por quem foi responsável. Diz-me, com alívio, sem orgulho, que não perdeu nenhum e que, felizmente, não tem consciência de ter morto alguém durante esses anos. Tenta explicar-me a seguir que o nível de camaradagem que então viveu nunca foi igualado em nenhuma outra fase da sua vida.

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publicado às 14:09


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